Opinião: Miguel M. Riscado | A Besta do Mar
Por Jornal Fórum
Publicado em 07/05/2026 09:00
Opinião

Passando os olhos por textos religiosos, mitológicos e lendários, escritos à milhares de anos, por povos com muitas ou poucas conexões, há um tema recorrente e transversal a todos eles: a batalha da ordem, do bem, contra o caos, o mal. O teólogo alemão Hermann Gunkel chamou-me a este fenómeno Chaoskampf; numa tradução muita lata, “luta contra o caos”. Foi quem esta lente que analisou o Antigo Testamento e propôs a aplicação desta teoria na luta entre o Deus de Israel (Yahweh/Elohim/El) e o Leviatã, a Besta do Mar.

Esta visão do Mundo, contudo, é anterior ao registo escrito na Bíblia, ainda que possa ser territorialmente localizado na zona do Levante, entre as terras de Canaã e de Ugarite, atuais Palestina, Israel e Síria. No Ciclo de Baal — esse mesmo falso deus citado como adversário do Deus da Bíblia — Baal é louvado por ter destruído o Monstro do Mar, Lotan. Ou seja, no prisma do povo da Síria Antiga, o seu deus, Baal, garantia a ordem, contra o caos do mar, do abismo. Também na mitologia grega e egípcia, encontramos relatos semelhantes, de luta contra a desordem. Até na mitologia nórdica, com muito interesse mainstream recente, Thor luta contra Jörmungandr, a serpente do mar.

Mais do que uma luta física, a luta contra a Besta do Mar, hoje mais que nunca, tem de ser encarada como uma luta espiritual.

Da ordem nunca surge a desordem, uma vez que esta é uma corrupção própria. Só a ordem pode garantir a sua manutenção. O problema atual é de apresentação de soluções fáceis, imediatas e mundanas, para problemas extremamente complexos e obscuros. Um desses problemas de desordem é causado, sistematicamente, pela “nossa” Besta do Mar, uma nação com pouco mais de duzentos anos. As tentativas constantes de disrupção da ordem mundial, após o grande resgate da Segunda Guerra Mundial, demonstram uma tentativa de vassalagem imperial. As constantes interferências na América Central e do Sul, por motivos económicos ou por paranoias, demonstram bem isso. Aliás, a própria criação da República (Fundamentalista) Islâmica do Irão, no final da década de 70, é prova de que a interferência, sem razão, por motivos de puro interesse financeiro, destrói qualquer estabilidade interna.

A luta contra a Besta do Mar é guiada por retidão, por humildade, por conexão milenar entre povos. A existência de um mediador interesseiro, mas não é a prova de que o mundo era mais equilibrado sem ultrapoderosos. Os interesses do Leviatã, do Adversário, quando colocados à cabeça da Nação, destroem e corrompem todos os valores humanista que são a base da conexão entre povos.

A luta contra o Adversário é milenar e antiga. Apenas a observamos com as nossas lentes pseudofuturistas; mas não basta — continuamos a repetir os erros do passado. O Chaoskampf, contudo, dá-nos esperança. Talvez ainda possamos destruir o dragão. 

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