Opinião: Jorge Simões | Há muita simbologia por trás de um simples chapéu de chuva. Muita simbologia e muitos sinónimos. Chuço, por exemplo. É como chamam o guarda-chuva mais
Por Jornal Fórum
Publicado em 07/05/2026 09:00
Opinião

A Covilhã tem recebido membros do Governo. E ainda bem. Um concelho do interior deve abrir portas, dialogar com o poder central e aproveitar todas as oportunidades institucionais.

Mas há uma pergunta que não pode continuar a ser evitada: o que fica depois das visitas?

Porque uma visita ministerial não é, por si só, uma conquista. É uma oportunidade. E uma oportunidade só se transforma em investimento quando o Município tem trabalho feito, projetos preparados, prioridades claras e candidaturas prontas.

Sem isso, fica a fotografia, o aperto de mão, a notícia do dia e pouco mais.

Nos últimos meses, passaram pela Covilhã vários titulares de cargos nacionais:

- Ana Paula Martins, Ministra da Saúde;

- Pedro Dias, Secretário de Estado do Desporto;

- Maria Luísa Oliveira, Secretária de Estado da Administração Escolar;

- Gonçalo Matias, Ministro Adjunto e da Reforma do Estado;

- Cláudia Sarrico, Secretária de Estado do Ensino Superior;

- Manuel Castro Almeida, Ministro da Economia e da Coesão Territorial;

- Fernando Alexandre, Ministro da Educação, Ciência e Inovação;

- e José Pedro Aguiar-Branco, Presidente da Assembleia da República.

É muita presença institucional. É muito palco. É muita oportunidade.

Mas que compromissos concretos ficaram? Que investimentos foram garantidos? Que dossiers levou a Câmara para a mesa? Que projetos estavam maduros para captar financiamento?

É aqui que começa a preocupação da oposição.

Não por crítica fácil, nem por vontade de contrariar tudo. Mas porque a Covilhã não pode desperdiçar oportunidades por falta de planeamento.

Na educação, a Secretária de Estado da Administração Escolar esteve na Covilhã e o Presidente da Câmara voltou a pedir verbas para escolas. Falou-se da Pêro da Covilhã, da Quinta das Palmeiras e da Campos Melo. Mas a própria comunicação social registou que, quanto à Campos Melo, o Município esperava que, à quarta tentativa de candidatura, “seja de vez”.

Quarta tentativa. Isto não é um detalhe administrativo. É um retrato político.

Pouco depois, o Ministro da Educação, Ciência e Inovação esteve na Campos Melo para inaugurar Centros Tecnológicos Especializados, financiados pelo PRR. Ainda bem. Mas como é possível que, numa escola central da Covilhã, uma candidatura essencial continue dependente de sucessivas tentativas, ajustamentos e expectativas? Quando há aviso, prioridade e visita ministerial, a Câmara devia chegar com o processo fechado, não em modo de esperança.

No desporto, o Secretário de Estado Pedro Dias esteve nos 50 anos da Associação Desportiva da Estação. Falou em apoios para instalações desportivas e em discriminação positiva para territórios de baixa densidade. A Câmara referiu uma carta de conforto à candidatura da ADE. Muito bem. Mas uma Câmara não se pode limitar a assinar cartas de conforto.

Onde está a estratégia municipal para o desporto? Onde está o levantamento dos equipamentos a legalizar, requalificar ou construir? Onde está a rede concelhia articulada com clubes, escolas, freguesias e associações?

No PRSE, a Câmara reclama a Barragem das Cortes, a Escola Agrícola da Lageosa e investimentos estruturantes para a Serra da Estrela. E faz bem em reclamar. Mas a pergunta é inevitável: se estes projetos são tão essenciais, porque não estão há muito tecnicamente preparados? Porque continuamos a falar de estudos e projetos, quando já devíamos estar a discutir execução, obra e calendário?

Não se financiam intenções. Financiam-se projetos.

Quem tem projetos maduros, estimativas, parcerias e candidaturas prontas chega primeiro. Quem fica à espera dos avisos chega tarde.

O PTRR abre portas em áreas que são a cara da Covilhã: água, floresta, energia, comunicações, freguesias, habitação, envelhecimento, infraestruturas críticas, pontes, taludes, linhas de água, proteção civil, inovação e baixa densidade. O Centro 2030, o Orçamento do Estado, o PRR, o Fundo Ambiental e os futuros quadros europeus são instrumentos que exigem preparação. Não servem para improviso.

E é aqui que está a falha política deste executivo: confunde reivindicação com estratégia, visita com resultado, anúncio com obra.

A Covilhã é governada pelo Partido Socialista há doze anos e iniciou agora mais quatro anos da mesma continuidade. Não estamos perante quem acabou de chegar sem memória, sem técnicos, sem arquivos e sem responsabilidade acumulada. Estamos perante um executivo que já devia ter uma carteira de projetos estruturantes pronta a apresentar em qualquer reunião, em qualquer visita, perante qualquer ministro.

É até politicamente irónico que um município socialista receba membros de um Governo PSD com uma frequência que deveria ser aproveitada com inteligência e rigor. Mas, em vez de transformar essas presenças em compromissos concretos, o executivo prefere muitas vezes a pose da reivindicação e tenta transferir para a oposição a responsabilidade de acompanhar pedidos junto de um Governo “da nossa cor política”.

Naturalmente que a oposição deve ajudar sempre que estiver em causa o interesse da Covilhã.

Mas há uma condição básica: tem de haver o que defender. É difícil pedir apoio ao Governo quando o Governo vem ao concelho e a Câmara não apresenta dossiers fechados, tecnicamente fundamentados e financeiramente estruturados.

A oposição não substitui o executivo. Não faz os projetos que a Câmara não fez. Não prepara as candidaturas que a Câmara atrasou. Não inventa maturidade técnica onde só há anúncios, intenções e improviso.

A visita da Secretária de Estado do Ensino Superior à UBI mostrou, aliás, o contraste. A Universidade recebeu a governante com visão, equipa, prioridades e projetos. A UBI sabe o que quer apresentar ao Governo. A pergunta é se a Câmara Municipal da Covilhã sabe.

Por isso, a questão é simples: que carteira de projetos PTRR está a Câmara Municipal da Covilhã a preparar?

Com que prioridades? Com que parceiros? Com que estimativas? Com que prazos? Que projetos estão prontos? Quais dependem da CIM, do Centro 2030, do Fundo Ambiental, do Orçamento do Estado ou de parcerias com a UBI, IPSS, juntas de freguesia, clubes e empresas?

A Covilhã precisa de menos comunicados e mais projetos. Menos fotografia institucional e mais engenharia financeira. Menos pedidos espontâneos e mais planeamento.

Receber governantes é importante. Mas recebê-los sem dossiers é desperdiçar poder político.

E a Covilhã não pode continuar a chegar atrasada aos fundos, às candidaturas e às oportunidades.

Porque quem chega tarde aos avisos, chega tarde às obras.

E quem chega tarde às obras, chega tarde ao futuro.

 

Jorge Simões

Vereador do PSD na Câmara Municipal da Covilhã

Gostou deste conteúdo?
Ver parcial
Sim
Não
Voltar

Comentários
Comentário enviado com sucesso!

Chat Online