Há muita simbologia por trás de um simples chapéu de chuva. Muita simbologia e muitos sinónimos. Chuço, por exemplo. É como chamam o guarda-chuva mais para o norte. Entre tantas opções, a única unanimidade relacionada com este artefacto é a de que ele pouco protege. Não é nem chapéu, nem guarda nada. Se guardasse a chuva, teríamos sempre água. Coisas do nosso português, lusitano e brasileiro.
Antes de qualquer coisa, para o bem da comunicação, permitam-me chamar este artefacto de guarda-chuva. Afinal, por mais que nada guarde, não o usamos na cabeça e, portanto, recuso-me a chamá-lo de chapéu. Este vem do latim cappellus ou do francês chapel. Algo que precisa de estar junto da cabeça, como os cabelos. Está claro?
E é justamente por não estar junto da cabeça que o perdemos com facilidade. Quem nunca perdeu um guarda-chuva? Perdê-lo é mais fácil do que perder a cabeça. Bem mais fácil. E é por isso que não gosto deles. Não gosto de perder, nem os guarda-chuvas, tampouco a cabeça.
Veja lá como a vida é engraçada. Com a minha atividade de livreiro, a conta inverteu-se. Antes, era eu quem os perdia. Agora, são os outros que saem e esquecem o protetor num canto qualquer da loja. Vão-se para as suas casas ou sabe-se lá para qual sítio e não se lembram de onde deixaram o instrumento. Eu, pouco reparo. Talvez devesse colocar uma etiqueta com o nome do proprietário quando entrassem no estabelecimento. Já há dois solitários guarda-chuvas perdidos na minha livraria. Se a tendência for aumentar, em breve poderei vendê-los em segunda mão. Será uma boa ajuda para fazer frente aos custos da loja. Se calhar, uma promoção: na compra de dois livros, ganhe um guarda-chuva perdido.
E por falar em guarda-chuva, houve um tempo em que o mesmo figurava como um importante acessório masculino. No século passado, era comum ver homens mais jovens, de boa saúde, a circular pelas ruas com os seus trajes alinhados. Faziam do artefacto uma espécie de bengala. Quiçá para se sentirem mais importantes ou respeitados, como no tempo em que os mais velhos assim o eram. O artefacto diferenciava os anciães (na flexão mais antiga de ancião) dos seus aspirantes. Símbolo de soberba, o guarda-chuva era indispensável até mesmo quando o sol não dava tréguas.
E já que falei em soberba, provavelmente uma das mais mesquinhas variações da vaidade humana, aquela que extrapola os limites mentais do narcisista, não poderia deixar de comentar que ainda vemos alguns desses tipos a circular pelas ruas. Velhos oligarcas, presos a um patriarcado apodrecido pelos tempos salazaristas (alguns nem tão velhos assim) ostentam outros acessórios como forma de demonstrar que, na ausência de um guarda-chuva, precisam de certas bengalas para impor a sua imaginária condição social. Anéis, correntes de ouro, pulseiras e, como se não bastasse, alguns utilizam uns relógios que fingem ser telemóveis. Visto que é deselegante atender o telefone ou ler mensagens enquanto os outros falam, consultam-nas no relógio, como se fossem ver as horas.
De qualquer jeito, não há o que fazer. Lá no fim, quando chegar o momento de comunhão com as bengalas, os sábios saberão colher os frutos da idade com sabedoria. Outros, no entanto, passarão a viver do passado, das lembranças dos seus feitos, dos seus títulos, conquistas e memórias. Enfim, tudo aquilo cuja importância o tempo desfaz. Será assim até que se possam perder da realidade e do quotidiano. Feliz de quem souber envelhecer, de quem puder reconhecer na bondade e na caridade o antídoto para a soberba. A estes, seja qual for, a bengala não passará de mero acessório.