Opinião: Jorge Simões | O PCP ainda faz falta à democracia?
Por Jornal Fórum
Publicado em 28/08/2026 13:46
Opinião

Há partidos que vivem sobretudo do futuro que prometem. Outros começam, a certa altura, a viver demasiado do passado que representam.

O PCP está talvez nesse equilíbrio.

Com mais de um século de existência, ligado à resistência à ditadura e à luta dos trabalhadores, o PCP enfrenta hoje uma pergunta que há décadas pareceria improvável: não se tem passado, porque esse ninguém lho retira, mas quanto futuro ainda consegue construir.

Não é necessário ser comunista para reconhecer que o PCP teve, e ainda tem, uma função na democracia portuguesa.

Talvez o paradoxo seja este: Portugal continue a precisar de algumas perguntas do PCP, mas cada vez menos portugueses acreditem nas suas respostas.

Em cinquenta anos, PS e PSD divergiram muito, mas consolidaram também um território comum: SNS, escola pública, Segurança Social, direitos fundamentais e um Estado social inserido numa economia de mercado. Muitas causas outrora quase exclusivas da esquerda passaram a integrar o património constitucional português.

Então, para que serve hoje o PCP?

Talvez para continuar a fazer perguntas que o poder nem sempre gosta de ouvir.

E os salários? E as pensões? E quem trabalha e continua pobre? E quem não consegue pagar uma casa? E os territórios que perdem serviços e esperança?

Podemos discordar das respostas. Mas uma resposta discutível não transforma uma pergunta necessária numa pergunta inútil.

Bobbio encontrou na igualdade uma fronteira entre esquerda e direita. Rawls alertou para o perigo de a concentração da riqueza se transformar em concentração de poder. Dois caminhos para a mesma inquietação: quanta desigualdade suporta uma democracia antes de comprometer a liberdade?

É aqui que o PCP conserva uma utilidade que ultrapassa o seu peso eleitoral.

Só que as perguntas permanecem atuais e os eleitores diminuem.

Nas legislativas de 2025, a CDU ficou pelos 2,91% e elegeu três deputados. O próprio PCP reconhece uma estrutura envelhecida: mais de metade dos militantes tem acima de 64 anos e apenas cerca de um em cada dez menos de 40.

O problema poderá não estar nos que saem. Está sobretudo nos que não chegam.

As novas gerações conhecem salários baixos, precariedade e rendas incomportáveis. Razões não faltariam para uma força política do trabalho e das desigualdades falar com os jovens.

Circula há muito uma provocação dirigida à esquerda: se acabasse com os pobres, perderia aqueles que nela votam.

É uma frase simplista e injusta. Mas o PCP oferece-lhe uma resposta curiosa.

Se pobreza e desigualdade produzissem automaticamente votos à esquerda, o PCP deveria estar a crescer. A precariedade não desapareceu, os baixos salários continuam e a habitação tornou-se dramática para muitos portugueses.

E, no entanto, perde eleitores.

Talvez isso demonstre algo essencial: não basta representar um problema. É preciso que quem o vive se reconheça nas respostas propostas.

E muitos jovens já não se reconhecem.

Será comunicação, liderança, organização? Ou algo mais profundo?

O PCP continua a assumir o marxismo-leninismo como base teórica. Tem todo o direito de o fazer. Mas terá de perguntar se uma linguagem moldada pelos conflitos do século XX consegue interpretar quem nasceu depois da queda do Muro de Berlim e vive entre inteligência artificial, alterações climáticas, redes sociais e novas formas de trabalho.

Reinventar-se não significa renegar a história. Pode significar distinguir aquilo que permanece atual daquilo que o tempo ultrapassou.

A dignidade do trabalho, o combate à pobreza, a saúde, a educação e a preocupação com a concentração da riqueza continuam atuais.

Mas será ainda convincente responder-lhes através do mesmo quadro ideológico?

Habermas deixa outra pista: perante mercados, energia, defesa, clima ou gigantes tecnológicos que atravessam fronteiras, talvez o problema não seja Europa a mais, mas faltar uma Europa mais democrática e solidária.

Também aqui terá de escolher entre certezas e respostas novas.

Surge então a pergunta mais incómoda:

Se o PCP se tornar residual, quem ocupa o espaço social que ele abandona?

 

 

Os problemas não desaparecem com quem os representa. O trabalhador insatisfeito continua insatisfeito. O jovem sem casa continua sem casa. Quem sente que os partidos tradicionais já não o escutam procura outro lugar: noutro partido, no protesto, em soluções mais radicais ou na abstenção.

Por isso, o enfraquecimento do PCP não é apenas um problema do PCP.

Uma democracia plural precisa de alternativas reais e de quem questione consensos. Uma sociedade onde todos discutissem apenas maneiras diferentes de administrar o mesmo pensamento seria talvez mais confortável. Não seria necessariamente mais democrática.

A pergunta não é, portanto, se o PCP tem direito a existir. Essa resposta pertence aos eleitores.

A pergunta é outra: conseguirá voltar a ser necessário para além da sua própria memória?

Conseguirá transformar uma história respeitável numa proposta de futuro? Falar com uma geração que conhece os problemas que sempre denunciou, mas já não reconhece a sua linguagem? Conseguirá mudar sem deixar de ser PCP?

Se conseguir, continuará a acrescentar diferença e pluralismo à democracia portuguesa.

Se não conseguir, poderão permanecer o partido, os símbolos, a história e a organização enquanto desaparecem lentamente os eleitores.

E talvez a questão mais importante nem seja o que acontece ao PCP.

Será perceber quem ficará com as perguntas que ele deixar para trás.

Nota: Bobbio, Rawls e Habermas são referências fundamentais do pensamento político contemporâneo, com contributos marcantes sobre democracia, justiça, igualdade e liberdade.

 

Covilhã, 28 agosto 2026

Jorge Simões (Vereador PSD)

Comentários
Comentário enviado com sucesso!

Chat Online