Opinião: Carlos Tavares | GrETUA
Por Jornal Fórum
Publicado em 02/07/2026 09:00
Opinião

O GrETUA (Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro) esteve em cena com A Floresta, uma criação original resultante do espetáculo final do seu Curso de Formação Teatral. O trabalho inspira-se em O Pato Selvagem, de Henrik Ibsen, e prova algo que muitas universidades fingem não perceber: o teatro não é um adorno académico, é pensamento em estado puro.

Dezasseis alunos em palco, dirigidos por Joana Magalhães, demonstraram uma maturidade artística que envergonha muita estrutura universitária que fala muito em “ligação à comunidade”, mas, na prática, vive fechada sobre si própria. A direção artística de João Garcia Neto impôs rigor, atualidade e densidade psicológica, sem concessões fáceis nem infantilizações — algo raro no panorama universitário nacional.

A peça trabalha a ideia da “mentira vital”: viver da mentira como mecanismo de sobrevivência até ao momento em que o “eu” colapsa. Uma metáfora brutalmente atual. E aqui começa o incómodo: quantas universidades vivem exactamente desta mentira vital? Dizem que fazem, dizem que apoiam, dizem que estão presentes — mas não fazem nada de estrutural, nada de continuado, nada de sério.

Enquanto algumas universidades constroem projetos culturais vivos, com impacto real, outras mantêm companhias profissionais que usam o nome da instituição para circular pelo país, sem ligação efetiva aos estudantes, sem risco artístico, sem mensagem relevante. É teatro de fachada, cultura de vitrina, financiada pelo hábito e pela inércia.

O ensino superior não pode continuar de costas voltadas para a comunidade, nem pode confundir extensão cultural com eventos ocasionais sem consequência. Um reitor que não percebe isto está a gerir edifícios, não uma universidade. Pensar a 10 ou 15 anos não é ambição: é o mínimo aceitável.

Cabe aos responsáveis universitários acabar com a mediocridade instalada, com a retórica bonita do “faz de conta” e com o medo de apostar em talento jovem, crítico e incómodo. Universidades que crescem precisam de pensadores ativos, comunicadores sem medo, criadores com nervo — não de discursos vazios nem de artes performativas ocas, onde a representação e o conteúdo são, francamente, abaixo de zero.

O GrETUA prova que é possível fazer melhor, com menos meios e mais exigência. Os seus responsáveis estão de parabéns por manterem viva uma tradição que muitos “eruditos” desconhecem ou preferem ignorar. Entre o clássico e certas derivas das artes performativas contemporâneas, não hesito: fico com o primeiro, mesmo sabendo que a DGArtes raramente pensa ou recompensa com critério. Mudam-se os tempos, muda-se o discurso, mas a cultura institucional raramente melhora.

Por cá, aguardemos que se continue a fazer teatro a sério.

«Muita merda».

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