Opinião: Marcos Leite | Nós e os índios
Por Jornal Fórum
Publicado em 02/07/2026 09:00
Opinião

Que diferenças têm o homem branco, caucasiano, de um indígena? Por certo que muitas. Bem mais que os negros. Enquanto acreditamos que os silvícolas são os indígenas, numa absurda ilusão colonialista, os atrasados acabamos por ser nós, homens da cidade e do campo, gente que não vive em harmonia com a natureza, mas que dela extrai tudo em nome de um suposto conforto. Um conforto que nunca parece ser o suficiente.

Sem adentrar em questões de natureza religiosa, é preciso relembrar a obra de Allan Kardec. No chamado “Livro dos Espíritos”, publicado em Paris no ano de 1857 (um compêndio de 1019 perguntas e respostas), Kardec indagou, na questão número 621: “Onde está escrita a lei de Deus?”. Os espíritos então responderam com uma só palavra: «na consciência». Ora, se a lei de Deus é a lei da natureza (conforme descreve a pergunta 614), viver em harmonia com a natureza é o mesmo que viver conforme a lei de Deus. Por esta razão, tenho a dizer que os indígenas são seres espiritualmente mais evoluídos do que nós, homens brancos, descendentes da cultura judaico-cristã.

Se partirmos dessa analogia, onde quem vive de acordo com a lei de Deus é o ser mais elevado, mesmo não precisando acreditar Nele, podemos afirmar que os descendentes da cultura judaico-cristã são, na verdade, seres pouco racionais. Somos «selvagens» justamente por vivermos em permanente estado de alerta e risco, como viviam os homens das cavernas. Vivemos à custa do medo. Criamos a nossa sociedade com esses valores atrasados, reproduzindo na nossa atmosfera as mesmas condições de vida dos primeiros humanoides. Parece um pouco exagerado, mas basta ver: os indígenas têm depressão? Cometem suicídio? Abandonam as suas crias? Desmatam? Exploram? Fazem guerras? São corruptos? Ateiam fogo às matas? Quem é o verdadeiro selvagem nisto tudo?

Por mais importantes que sejam as religiões, além de fazer o bem e manter a ordem e os costumes, elas também se aproveitam dos seus fiéis. Falam «em nome de Deus» o tempo todo, mas não conseguem aproximar o homem da natureza. Por que razão? Porque se assim o fizerem, perdem a razão de ser. É mais fácil, então, falar de pecado, de perdão, de erro, de crescimento espiritual, de céu e de inferno, enquanto os indígenas vivem o inalcançável: a harmonia com a natureza.

Se a lei natural ou a lei de Deus está gravada na nossa consciência, por que razão não somos seres conscientes? A resposta talvez esteja no nosso modo de vida, nos costumes que socialmente replicamos. Replicamos e erramos. Em nome do bem-estar, descolamo-nos da nossa essência. Esquecemo-nos da nossa natureza individual. Somos influenciados por uma sociedade perdida, que não vai a lado nenhum, liderada por homens loucos, eleitos por conseguirem influenciar, sem transformar, e assim caminhamos para o que parece ser o fim. E a sorte, por onde anda? A sorte, ao menos, serve de salvação para quem acredita em reencarnação. Aos demais, os que nela não acreditam, a vida termina assim, niilista, sem sentido, sem respostas, sem Deus. Um vazio que assusta os vivos e os mortos.

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