Foi aos 20 anos que Ela se rendeu a um dos vícios mais perigosos a que o ser humano está sujeito. A verdade é que não é apenas o vício dela, mas o de cerca de 26% da população portuguesa, e muitos não começam aos 20, mas aos 15. Fumar mata. Mas não fumar, muitas vezes, mói.
Fumar é o flagelo de milhões de pessoas no país e no mundo, mas nem a embalagem, paradoxalmente chocante, leva os consumidores desta droga banalizada a parar. Não digo que seja fácil, porque não é. Como todos sabemos, deixar um vício não é, nem nunca será, tarefa simples.
O cigarro acaba por ser menos uma escolha e mais uma resposta a um quotidiano que não dá tréguas. Por vezes, é até encarado como uma forma de integração social, felizmente, cada vez mais em declínio. Ela, a jovem que começou a fumar aos 20 anos, influenciada pela paixoneta da altura, tem agora 40. É casada, está grávida e prestes a receber uma das maiores bênçãos da sua vida: vai dar à luz uma menina.
Mas a bênção que Ela tanto esperava trouxe um lado negro por trás. Agora que estava grávida, era aconselhada a não fumar, pois isso poderia colocar em risco a sua saúde e a do pequeno ser luminoso que carregava no ventre.
Os “macaquinhos” na mente da (quase) mãe multiplicavam cenários sombrios: aborto espontâneo, parto prematuro, malformações congénitas. Foi nesse momento que o vício terminou, ou, pelo menos, parecia ter terminado.
Nove meses se passaram e nasceu outra “Ela”, uma bebé absolutamente saudável. Mas os anos avançam e a vida não para. Os dias de correria e pressão aumentam o stress de forma exponencial. Diz-se que a nicotina de um cigarro reduz esse stress acumulado. Será?
A verdade é que Ela não aguentou. Ao rever uma colega que tanto admirava, percebeu como as coisas mudaram. Agora já não fumava um tabaco convencional, mas tabaco aquecido, que “era muito melhor”. Foi nesse instante que percebeu: o vício não tinha desaparecido, estava apenas adormecido e com força suficiente para regressar.
Com o passar do tempo, Ela amadureceu e começou a refletir mais sobre a sua vida. O bebé que deu à luz, em 2046, terá 20 anos, a mesma idade com que a mãe começou a fumar. Foi aí que tudo mudou. Desta vez, não foram necessários medicamentos ou técnicas complicadas, existiram apenas duas coisas: a consciencialização e a força de vontade. Porque o que tem de ser tem muita força, mas o querer tem ainda mais.
Isto não é apenas a história d’Ela. É a história de muitas pessoas que, todos os dias, lutam com o mesmo ciclo de vício, arrependimento e tentação. A lei instituída em 2023 restringe o consumo de tabaco em Portugal, impondo limites que visam proteger a saúde pública. Não condeno quem fuma, condeno, isso sim, a negligência de um sistema que não resolve a raiz do problema: a pressão, o stress e as fragilidades humanas que nos empurram para o vício. Porque todos temos um vício... aceitá-lo e aprender a controlá-lo é o que nos faz humanos.