Opinião: Miguel M. Riscado | Soberba
Por Jornal Fórum
Publicado em 05/02/2026 09:00
Opinião

Nos últimos trinta anos temos visto o declínio da cultura social e política portuguesa. O resultado de um tempo onde os homens eram obrigados a participar numa guerra — ou três — sem sentido e as mulheres eram obrigadas a criar os filhos sozinhas, foi uma “geração rasca”, desligada do sentimento de união. A união vai muito além do nacionalismo bacoco; é a base do desenvolvimento nacional, da evolução de todos os fatores humanos — muitos mais importantes, ainda que derivados, dos económicos — que caracterizam uma sociedade avançada. As características desta geração pautavam-se por uma linha de desinteresse total em qualquer movimento coletivo, colocando acima de tudo os interesses individuais e — pior — imediatos. A falta de consequência levou ao apogeu das drogas em Portugal, à desinformação, que ainda persiste nalguns indivíduos, sobre as DSTs e aos investimentos desastrosos, que apenas se revelariam anos mais tarde, com a crise do subprime.

A subsistência desta postura, encontra, ainda hoje, duas vertentes marcadas: a ausência nos meios tradicionais de progressão pessoal (e consequente substituição por meios de validação alternativos) e a sensação de superioridade ético-moral sem esforço em relação a todos os outros seres.

Quanto ao primeiro aspeto, refiro-me fundamentalmente à descrença causada, do ponto de vista político, no sistema, com a consolidação plena da democracia nacional, nos anos 90, convivente com as maiorias cavaquistas e com a “calmação” guterrista. Não podemos negar que essa consolidação levou, bem ou mal, a um limitar de sonhos idealistas: para se subir na vida, pairava a ideia que era necessário um cartão cor-de-laranja ou cor-de-rosa e, quando se chegasse ao apogeu do puxa-saquismo, em caso de derrota eleitoral, tinha de se sobreviver durante os quatro anos na esperança que lá viesse o tacho outra vez. A vida partidária é cansativa e ingrata, além de hipócrita e incoerente. Este desânimo levou a taxas de abstenção altíssimas, consequência dessa falta de interesse. De certo modo, o Chega veio criar um novo oásis a muitos destes descrentes, com a ideia de um “partido deles, para eles”. O Chega é mais um partido no panorama partidário português, precisamente igual aos outros. O argumento de que ainda não liderou não procede, pois muitos outros partidos vieram, foram e continuam, sem nunca ter liderado, sem que nunca ninguém se lembrasse disso como justificativa. É verdade que o nosso sistema político favorece os partidos — e isso é diretamente devido a Cunhal e a Soares, que desprezaram as ideias de Alegre, por exemplo, com os Centros Populares, ou seja, os movimentos cívicos. A lógica partidária tira folgo à democracia. Para um cidadão normal, que estude, trabalhe ou tenha uma família é inimaginável subir e descer o país a virar copos e a fazer alianças, tal qual senhores feudais, para que uma ideia meritória e, por vezes, consensual seja apresentada e aprovada para o bem do país e de uma situação concreta, particularmente falando. Vou poupar-me de comentar os falsos debates e criação de falsos binómios de discussão. Uma grande amiga minha dizia, antes da ascensão do extremismo, que a melhor maneira de minar uma discussão era criar um falso binómio…tinha razão.

Quanto ao segundo ponto, refiro-me à soberba. O complexo do ignorante que está preso na subida do efeito Dunning-Kruger e lá fica, no esplendor da sua ignorância, tem esmagado, pelo cansaço, qualquer tentativa de discussão plural, científica e frutífera. Seria mais proveitoso discutir com o Pêro da Covilhã ou com o Marquês de Pombal e passar por doido varrido. Assim ficamos com duas reações em cadeia: quem tenta fica estafado e com vontade de desistir; quem tem a mania que sabe fica orgulhoso do seu alegado conhecimento. Este orgulho manifesta-se também com altivez política e falta de empatia. O governo Montenegro tem personificado bem esta segunda parte, com Leitão Amaro à cabeça, por motivo óbvios, mas também por Nuno Melo, líder de um partido-apêndice, Paulo Rangel, eterno mister know it all, e Maria Lúcia Amaral, habituada aos cargos de “bastidores” com influência — como Conselheira do Tribunal Constitucional ou Provedora da Justiça —, mas sem prestação política de contas com perguntas e respostas diárias.

Não vejo um fim para esta virtual guerra civil. A mudança de sistema político poderia ser uma solução, mas se o defendo atrevo-me a cair no poço das falsas dicotomias e a ser colado a um dos lados.

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