Quando uma câmara municipal, precisa de viajar com quarenta pessoas para falar de mobilidade urbana, a questão deixa de ser a mobilidade da cidade e passa a ser a mobilidade do bom senso, que definitivamente não existiu na cabeça do principal responsável da Câmara Municipal da Covilhã.
Esta bela viagem por terras de “Nuestros Hermanos” e igualmente noticiada graças a “Nuestros Hermanos” parece até um conto associado à famosa coletânea das “Mil e uma Noites”, onde encontramos o famoso conto de Ali Babá, que foi popularizado por Antoine Galland no século XVIII, ensinando que os excessos, raramente passam despercebidos.
Realmente, uma visita técnica para discutir mobilidade urbana, não exige de todo uma romaria institucional, exige sim competência, foco e acima de tudo responsabilidade, mas quando se verifica o contrário, não podemos deixar de salientar também, esse grande Provincianismo, que por aqui ainda muito prolifera, preferindo ainda valorizar a quantidade, em vez da qualidade.
E convenhamos, que não é preciso ser-se muito inteligente, basta qualquer um fazer uma pequena pesquisa e rapidamente se chega à conclusão, que esta comitiva de quarenta pessoas, deveria ser sim composta simplesmente pelo presidente da câmara, pelo vereador com o pelouro da mobilidade, por um técnico especializado em tráfego, por um responsável pelos transportes municipais e se necessário ainda, por um técnico de planeamento urbano e Ponto Final.
Mas com uma comitiva de quarenta pessoas, que além de incluírem, talvez digo eu, as pessoas que atrás mencionei, incluíram ainda parte da vereação e pasmem-se, até a própria oposição, que não se opôs a ir nesta bela comitiva, possivelmente esquecendo que esta bela missão de hipotético trabalho, se transforma num exercício de excessos pagos pelos contribuintes e alguns, devem ter pensado mesmo, que esta viagem era uma daquelas visitas de estudo de liceu.
Ora quando o número de participantes ultrapassa o razoável, a questão deixa de ser a técnica e passa a ser uma questão política, pois o problema deixa de ser a famosa mobilidade da cidade, mas sim a facilidade com que se normaliza o desperdício de recursos públicos.
Depois de toda esta ironia, impõe-se sem dúvida uma série de questões essenciais:
-Quanto pagou o Município por esta bela deslocação?
-Quem decidiu a composição da comitiva e em que critérios se baseou?
-E acima de tudo, que resultados concretos, justificam a presença de quatro dezenas de representantes?
-E a oposição, que tem a dizer sobre este comportamento da autarquia e do seu próprio comportamento como oposição?
-Teria a oposição atuado da mesma maneira, se estivessem no lugar de presidente da câmara?
-E porque decidiram ir, em vez de apresentar resistência, preferindo aguardar por uma reunião na câmara, com todos os dados recolhidos pelo presidente, que no fundo deveria ter viajado com uma equipa muito mais reduzida, afinal de contas, quem governa o município é ele e não a oposição?
De fato, vivemos em democracia e viver em democracia, é em parte ter a liberdade de tomar decisões e agir, mas essa mesma liberdade, implica também responsabilidade e neste caso, o problema não é viajar, pelo contrário, é sim explicar custos, justificar critérios e prestar contas aos cidadãos e se possível, poder vir a demonstrar na prática, qual o resultado dessa mesma viagem, se foi ou não benéfica para a cidade e se de fato deveria ter sido mesmo feita.
Quem gere dinheiros públicos, não está só a administrar recursos, está sim a dar um exemplo e o exemplo, é sem dúvida uma forma ética de exercer um poder e um cargo político de importância e na política, como toda a gente bem sabe, o exemplo não é só um detalhe, é uma obrigação e o poder público, mede-se na maior parte das vezes, menos pelo que pode fazer e mais pelo que escolhe não fazer e neste caso, a escolha não foi má, foi desastrosa.
Voltando a Ali Babá, que não passa de pura ficção, temos que lembrar, que o poder público, esse não é ficção, esse deve ser real, porque os cargos passam, os orçamentos gastam-se, mas o exemplo, esse fica para sempre colado a quem o praticou e é precisamente nele, no exemplo, que se mede a ética de quem governa.
Hoje olhamos para a cidade da Covilhã, uma cidade que andou para trás durante oito anos e que mesmo assim, veio a dar o benefício da dúvida ao senhor que se seguiu e que é da mesma área política e temos que salientar, que em três meses de governação de ecrã, assistimos continuamente a promessas e zero obras, até mesmo a obra que anunciou na sua tomada de posse, a reabertura das casas de banho públicas, uma obra onde realmente, não se verificou qualquer tipo de movimentação.
Continuamos com estradas dentro da cidade plenas de buracos e obras não concluídas, continuamos com elevadores cheios de avarias, continuamos com um silo fechado, continuamos com um mau funcionamento dos transportes, continuamos a votar na escola central, sabendo que tem difíceis acessos para muitas pessoas e lembrar que esta escola precisa de uma intervenção da câmara, devido a problemas de atropelamentos a crianças e nada é feito, existe uma passividade de tomadas de atitude, que são no fundo uma amostra, do que esta câmara tem feito desde que foi eleita, a par de assistirmos a uma entrada massiva de trabalhadores na câmara, que nunca saberemos se são efetivamente necessários e se servirão para melhorar serviços à população, ou se servem literalmente, para inflacionar o aparelho estatal.
Quero terminar dizendo e reforçando a seguinte ideia:
Se a câmara necessita de viajar com quatro dezenas de pessoas, para discutir a mobilidade da cidade, imaginem o que vai acontecer ao resto do orçamento municipal e neste seguimento, a questão que se coloca e que é bem pertinente é a seguinte:
-Estaremos atentos o suficiente, para questionar cada decisão, para exigir toda a transparência, para que nas próximas eleições autárquicas, possamos escolher com clareza, representantes que se comprometam a fazer evoluir a cidade da Covilhã?