Pelo título o leitor já desiste da leitura. Estamos em fevereiro. Janeiro já deu o que tinha que dar. Aliás, deu muito. Em alguns lugares, superou o final do verão passado. Não bastassem os incêndios, provocados ou não, agora temos os vendavais, os ciclones, a chuva incessante. Mal termina uma e já vem outra. Deve ser por isso que ninguém mais diz “Bom ano”!
Faz pouco mais de três primaveras que vivo em Portugal. Sempre ouvi com muito gosto as saudações desta terra. O bem haja, por exemplo, é algo profundamente tocante. Soa como divino, como uma valsa a representar o baloiço do mar. Bem pra cá, haja pra lá. Ou, para os mais altruístas, bem pra lá, haja (bem) pra cá. Viu só, já quase perdia-me nos encantos dessa saudação e esquecia de comentar, que desde a minha chegada, no já longínquo 2022, em nenhum outro começo de ano ouvi tantos “Bom ano!”.
Mas parou. Fiquei a reparar. Cada novo dia do janeiro, lá pela segunda quinzena, saía de casa determinado: será que alguém vai desejar-me bom ano hoje? Onde quer que eu fosse, lá estava alguém, conhecido ou não, a me desejar bom ano. No dia seguinte, a mesma coisa. As pessoas pareciam realmente querer que o ano fosse bom. Será que o anterior foi ruim ou será que os portugueses (e imigrantes) andam a querer coisa melhor do que aí está? A saber pela segunda volta, que se aproxima com suas nuvens carregadas, acredito que teremos bom tempo pela frente. Já chega de ventania, enchentes e estragos. Estamos fartos! A política precisa mesmo é de calmaria. É preciso algo mais seguro. Velocidade não combina com trepidação.
Ontem, ao encontrar um amigo que ainda não tinha encontrado em 2026 minha tese desmoronou. Foi preciso zerar o odómetro outra vez. Bastou apertar as mãos e logo ouvi um sonoro “Bom ano!”. Não espero que seja o último, mas cá dentro de mim, algo me diz que sim, que essa fase de desejar bom ano acabou. Então, ponho-me a pensar: que outra saudação poderíamos propor no lugar do “Bom Ano!”? Bom dia e boa semana já não mais. Estão manjados e certamente será o que mais vamos ouvir doravante. Isso quando não ouvimos “um resto de bom dia!”, que também é lindo, mas resto é uma palavra triste. Resto é sobra e viver de sobras, na esperança que reste alguma coisa, é acreditar que antes dela muita coisa já terá acontecido, queiramos ou não.
Enquanto ainda não sei que expressão usar, em lugar do belo “Bom ano!”, fico com minhas pertuntas. Como será que as pessoas iriam reagir se eu dissesse “tenha fé!”. Será que me olhariam com incredulidade? Como dizer isso a uma pessoa que está a passar por maus bocados? Dizer “Deus te abençoe!” seria lindo, mas será que ainda há quem acredite em Deus? Mesmo os crentes da divindade, será que acreditam em bênçãos? Difícil, não é mesmo? A vida anda complicada, trincada, imprevisível como o clima. Quem diria que um goleiro faria um golo de cabeça no último lance do jogo? Mas sim, alguma voz foi lá e disse: vai para área. Se a bola vier, cabeceie! Se vai ser golo, não sabemos, mas se for, será lindo!
Tenhamos calma! Ainda restam onze meses para fazermos diferente. Temos muito tempo! Há uma primavera enlouquecida para aqui chegar e mandar para longe essa chuva, esses ventos e todo o rasto de destruição que ronda os nossos dias. Depois, o verão e suas noites brancas, como dizia Dostoiévski. Mais adiante, já quase no fim de ano, as cores do outono e o sopro do vento frio. Ciclos, que começam e que sabemos, hão de terminar. Como dizia o velho Chico: tudo passa! E nesse eterno recomeçar, é preciso acreditar. Dias melhores virão! Até lá, sigo com o meu “Bom ano!” calado em meu peito.