Opinião: Paulo Rosa | A Lenda do Reino dos Grandes Anúncios
Por Jornal Fórum
Publicado em 10/09/2026 09:00
Opinião

Conta a antiga tradição da Serra da Estrela que existiu, não há muito tempo, um reino chamado Covilhândia, governado pelo famoso Conselho dos Grandes Anúncios.

Era uma terra singular. Ali, os projetos nasciam mais depressa do que cogumelos depois da chuva, mas cresciam mais devagar do que um burro a subir às Penhas da Saúde carregado com pedras.

Diz a lenda que todos os meses aparecia um novo pergaminho mágico anunciando maravilhas extraordinárias:

Chegará a Luz Eterna que reduzirá a conta da eletricidade!

Será construído o Grande Corredor Verde do Zêzere, onde os viajantes caminharão ao lado de lontras pensadoras e trutas poetas! 

Os transportes chegarão a todas as aldeias, montados em dragões ecológicos! 

Os buracos das estradas desaparecerão por encanto! 

Será criada a Grande Rede Real de Creches, Jardins de Infância e ATL, onde nenhuma criança ficará em lista de espera e todos os pais viverão sem preocupações!

Erguer-se-á o Majestoso Complexo Desportivo da Montanha, onde os campeões correrão mais rápido do que o vento da Serra!

A lendária Barragem das Cortes guardará água suficiente para enfrentar sete verões de seca e três invasões de gafanhotos!

E nascerá o Parque da Cidade, um jardim tão belo que até os esquilos pedirão residência permanente!

O povo escutava, aplaudia e regressava a casa satisfeito.

Mas passados alguns meses havia um curioso fenómeno.

A Luz Eterna permanecia numa caverna chamada Tribunal dos Mil Pareceres.

O Corredor Verde existia apenas nos mapas desenhados pelos cartógrafos reais.

Os dragões ecológicos continuavam em fase de estudo.

E os buracos das estradas, longe de desaparecerem, pareciam reproduzir-se durante a noite.

Havia mesmo quem jurasse ter visto um deles engolir uma carroça inteira perto da Corda do Rio.

Quanto à Rede Real de Creches, Jardins de Infância e ATL, dizia-se que estava protegida por uma fada chamada Diagnóstica das Necessidades, que passava os dias a elaborar relatórios sobre relatórios, sem nunca revelar onde ficavam as vagas prometidas. 

O Complexo Desportivo da Montanha transformou-se numa lenda ainda maior. Os atletas do reino treinavam para a sua inauguração havia tanto tempo que alguns já competiam na categoria dos veteranos antes de a primeira pedra decidir aparecer.

A Barragem das Cortes era um caso à parte. Os mais velhos garantiam que existia em todos os discursos, em todas as apresentações e em todas as conversas de taberna. Alguns até juravam tê-la visto uma vez, numa manhã de nevoeiro particularmente cerrado. Mas ninguém conseguiu apresentar uma fotografia.

Já o Parque da Cidade tornou-se tão lendário que os habitantes começaram a utilizá-lo como referência geográfica imaginária.

Entretanto, surgiu outra lenda.

A dos Sete Calendários Perdidos.

Segundo os sábios da região, cada vez que alguém perguntava:

Quando começa a obra? Um calendário desaparecia misteriosamente.

Ao fim de alguns anos já ninguém sabia ao certo em que mês vivia o reino.

Um caso particularmente famoso ocorreu com as obras do Silo Encantado do Sporting.

Os mais velhos contam que as obras tão prometidas foram iniciadas numa era remota.

Alguns arqueólogos defendem que são contemporâneas das invasões francesas.

Outros acreditam que começaram antes da fundação de Portugal.

A verdade nunca foi descoberta.

Quanto à Central de Camionagem, encontrava-se protegida por um poderoso feitiço conhecido como "Vamos Avaliar as Hipóteses".

Era uma magia tão forte que impedia qualquer decisão definitiva de se aproximar do edifício.

O mesmo sucedia com o preço da Água.

Todas as primaveras surgia o Oráculo da Redução Tarifária.

O oráculo anunciava:

Brevemente, muito brevemente!

E desaparecia numa nuvem de burocracia até ao ano seguinte.

No final desta lenda, os habitantes da Covilhândia chegaram a uma conclusão simples.

Os anúncios são como nuvens na Serra: impressionam quem olha para cima, mas não regam os campos enquanto não chover.

E assim passaram a pedir menos profecias, menos pergaminhos e menos mapas encantados.

Pediam apenas uma coisa muito difícil de encontrar naquele reino:

Um calendário.

Porque, como dizia o velho sábio do Pelourinho:

 

"Prometer é magia. Cumprir é obra."

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