Todos os dias vemos guerras, mortes, incêndios, violência, pobreza, crises políticas e, acima de tudo, pessoas a sofrer.
Primeiro ficamos chocados. Depois comentamos. Depois fazemos scroll. E amanhã há outra coisa. Outra notícia, outra tragédia, ou outra imagem que nos prende a atenção durante alguns segundos, antes de ser empurrada para baixo por mais uma publicação, mais um vídeo, mais uma opinião.
Hoje em dia, parece que este “choque” dura cada vez menos. Mas será que nos tornámos indiferentes? Ou será que simplesmente aprendemos a sobreviver ao excesso de informação?
Talvez o problema não seja já não sentirmos. Talvez seja sentirmos demasiado, demasiadas vezes. Este sentir excessivo acaba por nos conduzir à indiferença, à banalização do que antes nos parecia surpreendente, inaceitável ou até inimaginável.
Porque não há tempo para absorver uma tragédia antes de surgir outra. Não há tempo para compreender uma guerra antes de começarmos a discutir outra. Não há tempo para chorar quem morreu antes de conhecermos o rosto da próxima vítima.
E, no meio disto tudo, continuamos agarrados ao ecrã, a fazer scroll. Não porque não nos importe, mas porque, de alguma forma, a nossa cabeça precisa de continuar.
É estranho pensar que podemos assistir à destruição de uma cidade enquanto estamos sentados no sofá, entre um anúncio de um restaurante e um vídeo de alguém a dançar. Podemos ver uma criança a fugir da guerra e, segundos depois, receber uma fotografia de umas férias paradisíacas.
A tragédia e o entretenimento encontram-se agora no mesmo ecrã e talvez seja essa a verdadeira mudança.
Não é apenas a quantidade de informação que recebemos. É a velocidade com que somos obrigados a passar de uma emoção para outra.
Raiva. Tristeza. Medo. Riso. Indignação. Curiosidade. Tudo em poucos minutos. E talvez, por isso, tenhamos aprendido a não ficar demasiado tempo em lado nenhum.
E no meio disto tudo, até o sofrimento tem um prazo de validade. Isto não significa necessariamente que tenhamos deixado de nos importar. Talvez signifique apenas que já não sabemos como carregar tanta coisa dentro de nós. Porque é impossível sentir profundamente tudo aquilo que vemos todos os dias.
E talvez esta seja uma das maiores contradições do nosso tempo, pois nunca estivemos tão informados sobre o sofrimento dos outros e, ao mesmo tempo, nunca tivemos tão pouco tempo para o sentir.
Mas há uma coisa que me preocupa mais do que o scroll. É o dia em que deixarmos de parar. O dia em que uma imagem de guerra já não nos fizer levantar os olhos do ecrã, o dia em que uma tragédia for apenas mais uma notícia, ou o dia em que deixarmos de perguntar “como é possível?” e passarmos simplesmente para a próxima publicação.
Talvez não precisemos de ficar chocados para sempre. Mas talvez ainda precisemos de ficar chocados o suficiente para não nos tornarmos indiferentes. Porque, quando a tragédia deixa de nos fazer parar, talvez seja aí que começamos verdadeiramente a perder alguma coisa: a capacidade de sentir. E uma sociedade que deixa de sentir corre o risco de se habituar a tudo.