A chegada do verão é motivo de jubilo. Para muitos vêm as férias, o descanso, o sol, a família. Ainda que curtas, são merecidas e alegres. Uma pequena fatia do ano que compensa as inquietações do restante. O sol aumenta o bom humor, apesar da temperatura. E o mundo parece tornar-se um local melhor. Mas há uma tristeza intrínseca a esta época. Uma nostalgia de várias valências.
A nostalgia da infância é especialmente apurada nesta altura. A lembrança dos três meses de férias, em casa dos avós, a passear pela cidade, sem qualquer outra preocupação. Os trocos que iam nos bolsos eram suficientes para uma tarde bem pensada. As viagens de autocarro, sem a pressa da chegada. A inexistência de uma linha temporal contínua, apenas aqueles momentos, bem passados, sem percebermos que, afinal, o mundo não era nada daquilo. O mundo das aparências, das pressas, dos salamaleques…isso não era sequer alcançável pelo mais exímio pensador. A alegria de existir, o prazer de não fazer nada, de viver cada dia, durante três meses, de cada vez. Olhar para trás e desejar o regresso desses tempos é um desejo de uma vida mais simples, sem complexos e truques. A descoberta da tranquilidade só para, anos depois, a vermos fugir pelos nossos dedos. O dormir descansado independentemente da hora de dormida e de levantar, para a rigidez do horário fixo e repetitivo. A viva perde a espontaneidade, que é substituída pela acolhedora previsibilidade. Na verdade, quase ninguém seria capaz de viver, hoje, uma vida espontânea. O medo, o temor, o receio do desconhecido obstam a vivência de uma vida natural; montamos uma vida de construções mentais que aplicamos na realidade e escolhemo-las em substituição da realidade que negamos.
A nostalgia, contudo, não é só do passado. É também do próprio presente. Enquanto tentamos aproveitar — lá está, colocando o descanso num horário — os dias de férias, já pensamos no retorno. Sentimos aquele vazio no estômago, o soco na barriga, o regresso mais que anunciado com as frases feitas do costume: “foi rápido, passou depressa…sim, foi outra no Algarve/Figueira/no mesmo local de sempre”. Já antecipamos a nossa criação triste de realidade no vislumbre que temos da verdadeira vida. Mas há pior. Há uns anos conheci um grande advogado, excelente pessoa também, que, quando ia de férias com a sua família para a praia, mal as filhas se afastavam para ir à água, tirava um tablet com as credenciais do escritório para ir adiantando e-mails. Isto não é, já, nostalgia, é uma devoção, quase idolatra, ao trabalho. Como se apenas existisse e fosse a peça central da nossa vida, e tudo o resto fosse um acrescento.
Temos reservado, dentro da nossa própria imaginação, longe da criação de realidade que escolhemos aceitar, todas as ferramentas para fazer, ser e executar de maneira diferente, de maneira mais real e completa. Temos, dentro de nós, contudo, os medos e os obstáculos que nos impedem e bloqueiam de continuar. A grande parte destes elementos não existe no mundo real, são criações mentais. Quando conseguirmos entender isso, aí e só aí, seremos verdadeiramente livres, com férias infinitas, nesta vida que, toda ela, é uma espreguiçadeira de praia.
Bom começo de época balnear para todos e que o som, cheiro e tato das ondas desbloqueie uma nova vida.