Na crónica da semana passada, fizemos uma breve excursão pelo conceito de idolatria nas religiões abraâmicas. À primeira vista pode parecer descabido falarmos deste tema. Dirão: “a idolatria, hoje, já não existe” e “ninguém olha para uma estátua e pensa que está lá um deus”. Isso é verdade; mas também é verdade, como vimos, que a idolatria alcança outros domínios além do campo material e palpável. E é precisamente por esses campos que falar sobre isto é atualíssimo.
O que observamos hoje é uma dedicação ou admiração desmesurada a pessoas, objetos ou atividades mundanas. Criamos uma expetativa mental sobre esses aspetos que se assemelha em tudo a um deus. “Deusificamos” a nossa realidade parca. E isso tem consequências nefastas, como veremos.
A equiparação de qualquer indivíduo a um deus, mas não é que a manutenção do pensamento das modas e das tendências no núcleo central da nossa vida. Ao equiparamos além a um deus, criamos, duplamente, uma falsa ideia da realidade: para nós, que começamos a adorar aquela pessoa, porque é músico, actor, futebolista, famoso, o que seja; e, para os outros, uma vez que até podemos nem adorar aquele indivíduo, mas para nos integrarmos, para parecermos atuais e cultos, alinhamos na onda. Além desta dupla dimensão, não é incomum criar nessas figuras uma façanha de superioridade que verdadeiramente não têm. Não é admissível que qualquer famoso, em busca de interações nas redes sociais ou simplesmente por mau carácter, esteja acima de ninguém. Já para não falar da questão do mérito ou falta dele nestes casos. Até nos jovens futebolistas, por exemplo, vemos essa mania, muitas vezes alimentada pelos próprios pais. Também aqui há uma idolatria: uma criação de algo sobrehumano onde, efetivamente, não existe. O segue/não segue, os gostos, as partilhas…tornámo-nos uma sociedade vã. Aliás, sempre o fomos, mas agora temos ecrã para o mostrarmos.
Este é apenas um exemplo. Também a pornografia, as superstições, o amor ao dinheiro, consubstanciam formas atuais de idolatria. Estamos, em qualquer dos casos, a substituir os nossos princípios, a nossa génese, por materialidades nulas de valor e acrescento a nós mesmos e à nossa relação com os outros. Até a paternidade se transformou numa idolatria. A criação do bebé modelo, perfeito, uma verdadeira adoração ao recém-nascido, que coloca nele o peso do mundo e a perfeição; realidade inalcançáveis a qualquer humano.
As consequências pessoais e sociais da idolatria são, por isso, nefastas. Uma sociedade narcisista, de cabotinos maldosos, de vazio interior e moral. Uma sociedade de grunhos e de sisudos, que não conhecem um sorriso e uma entre-ajuda. O Venerável Fulton Sheen dizia que “um sorriso da manhã, no autocarro, pode evitar um suicídio à tarde”. Perdemos o sentido de ligação interhumana. Estamos apenas preocupas em parecer o mais cool possível, na nossa pequena bolhinha. E perdemos o sentido do mundo assim. A conversa alheia de simpatia e amizade, a igualdade nos olhos de cada um dos nossos concidadãos. A ausência de ídolos é a presença de uma moral social perfeita. Onde reinam respeito e convívio mútuo. No momento em que tentamos subir a escada para um degrau que não é o nosso, perde o mundo, perdem as pessoas com quem nos cruzamos todos os dias e perdemos nós mesmos.
Receio que alguns gostem mesmo de perder. Por não perceberem que têm que romper a nora do moinho que lhes foi passada por gerações anteriores. E assim continuaremos: uns no mundo dos ídolos, a tentar estar acima de todos os outros; outros, no mundo real e ideal, que existe, onde não há idolatria, mas apenas amizade e igualdade.