Opinião: Miguel M. Riscado | Idolatria (parte I)
Por Jornal Fórum
Publicado em 05/06/2026 09:00
Opinião

Nas três religiões abraâmicas, judaísmo, cristianismo e islamismo, ao culto de um objeto, figura, conceito, ideal ou pessoa à semelhança de uma divindade é chamado idolatria. O conceito não é entendido uniformemente, mas pode ser uma útil um breve excurso sobre as suas apresentações, retirando utilidade para fenómenos atualíssimos.

            Na tradição judaica, no Livro do Êxodo, nos 10 Mandamentos dado por Deus a Moisés, é inscrito na tábua que o povo não fará esculturas de Deus, nem deverá fazê-las para outras entidades (como falsos deuses ou objetos mundanos); no Deuteronómio, na oração mais importante do judaísmo, a Shemá, é reafirmado o monoteísmo; no Levítico, Deus alerta para a não conversão a ídolos e proíbe a construção de figuras de metal. Na doutrina judaica posterior, muitos rabinos e comentadores densificaram esta temática. No séc XII, Maimónides refere que o culto a ídolos é a maior violação de todos os mandamentos; antes, já Rashi, em comentário ao Êxodo, alertara para a substituição da relação direta com Deus pelos ídolos; no Talmude Babilónico, uma espécie de comentário e glosa às Escrituras, a idolatria é elevada a pecado mortal. Noutros livros proféticos, integrantes do Antigo Testamento, como Isaías e Jeremias, os ídolos são descritos como meros objetos sem qualquer divindade, sendo negada a sua superstição pelos Profetas.

            O Cristianismo reconfirmou o referido, mas melhorou a sua revelação. Nas Cartas do Novo Testamento, os cristãos são alertados para “fugirem da idolatria” (Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios) e para “se guardarem dos ídolos” (Primeira Epístola de São João). No Livro do Apocalipse, “os idólatras (…) terão a sua parte no lago que arde”, sendo este conceito estendido, na Epistola de São Paulo aos Colossenses, à avareza, conectando-se assim com o apego aos bens materiais. A doutrina posterior desenvolveria o conceito de idolatria como estado espiritual, mais do que material. Santo Agostinho associa, na Cidade de Deus, o conceito ao “coração inquieto”, que procura ídolos para adorar e que não se contenta com a sua limitação humana; São Tomás de Aquino, na Suma Teológica (Secunda Secundae, Questão 94), apresenta uma definição tripartida de idolatria — a falsos deuses, a criaturas como se fossem deuses e a objetos como se possuíssem poder próprio. Até no Protestantismo, João Calvino vem chamar à mente humana “uma fábrica de ídolos”. Atualmente, no § 2113 do Catecismo da Igreja Católica,  idolatria és estendida ao culto do poder, do prazer, da raça, dos antepassados, do Estado, do dinheiro, ou seja, “idólatra é quem estende para qualquer coisa o conceito de Deus”.

            No islamismo, o Alcorão segue, em larga medida, o ensinamentos de monoteísmo e do afastamento da “deusificação” de homens (Suras 4:48 e 2:165, respetivamente). Ainda que alguns comentadores como Ibn Taymiyya e registos orais transcritos como a Hadith Buhkari de Sahih al-Bukhari, associem diretamente a idolatria a imagens, outros comentadores como Algazali ou Alcuarismi, fazem-no em relação ao ego, aos desejos, às paixões e às superstições.

            Esta brevíssima resenha histórico-conceptual é frutífera para a compreensão de fenómenos atuais, que melindram os indivíduos e a sociedade. A frustração, os desvios maliciosos e a criação (e queda) de falsos ídolos são situações quotidianas e, afinal, também milenares. Mas não temam; há uma solução. Brevemente lá chegarei.

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