Opinião: Marcos Leite | Do sono profundo
Por Jornal Fórum
Publicado em 23/07/2026 09:00
Opinião

Seria, no mínimo, interessante acompanhar o despertar de uma pessoa que estivesse adormecida há pelo menos vinte ou trinta anos. Quantas novidades teria diante de si quem adormeceu e não viu o tempo passar? Mais ainda, quantas sensações estranhas teria essa pessoa? Com tudo na palma da mão, observaria o mundo de hoje com os olhos do passado e certamente ficaria maravilhada com tantas mudanças. Mas e se fosse o contrário? 

(…) 

Começo a imaginar a cena. A pessoa acorda, reconhece os familiares, demora um pouco a dar-se conta. Até que, por fotografias, recebe a notícia de que dormiu durante longos trinta anos. Perplexa, precisa de se ambientar, como quem nasce outra vez dentro da própria existência. E as crianças? Cresceram, mas permanecem em casa. Nenhuma casou ou teve filhos (netos). Os pais não arredaram o pé, zelando pela cria que acordou. A cara-metade? Não aguentou. Foi à vida, em busca de algo mais dinâmico do que ficar à espera de que alguém acorde. E os amigos? Os poucos que sobraram - e que nunca falharam - receberam a notícia com entusiasmo e festa. 

Passado algum tempo, com a vida a voltar ao seu ritmo, foi preciso aprender tudo outra vez. Os telefones perderam os fios. Perderam também a original função de fazer as pessoas conversarem entre si. Nas ruas, carros que não fazem barulho e não poluem com os seus gases do efeito estufa. No primeiro passeio à rua, uma constatação: como está quente!” Mas basta entrar em qualquer ambiente e tudo está climatizado. “Pois é, a mercearia da Dona Rosa não existe mais”. E assim vai percebendo a passagem dos anos. No lugar, há mais um prédio de apartamentos. “Olha, a casinha do sapateiro ainda está ali.” Embora fechada, resiste ao avanço das plantas que parecem engoli-la, até que os herdeiros decidam vendê-la. 

Por mais estranha que essa cena possa parecer, há uma coisa que ninguém invade facilmente: a intimidade da pessoa. Aquele interesse em saber, por conta própria, o que se está a passar realmente. É nas ruas que ela busca orientar-se melhor. Enfrenta severa dificuldade para encontrar um quiosque de revistas. Está sedenta por um jornal. Quer saber a verdade. Os locais que vendiam desapareceram. Percorre esquinas e mais esquinas e não é possível encontrá-los. Fica em dúvida se ainda há quem leia. Não há mais pessoas sentadas nos bancos a ler jornais. Por um segundo questiona-se se no futuro não existem notícias. Nos passeios, boa parte das pessoas caminha a olhar para o ecrã do telemóvel. Não vestem mais roupas ajustadas pela costureira. A moda é uma só e todos se parecem uns com os outros. 

Nesse andar íntimo, de quem observa tudo em silêncio, num paradoxo entre os avanços tecnológicos e o retrocesso social causado pelo isolamento e individualismo, o pensamento avança, ganha força. Todas essas tecnologias, todas essas funcionalidades e recursos: para que servem? Para quem servem? Que evolução foi essa? Tecnológica, com certeza, mas sociológica, certamente que não. A mente é invadida de questionamentos, como se tivesse de pensar trinta anos em um dia. 

A pessoa sopesa. Pensa, respira, tem calma. É grata por ter acordado. Procura reintegrar-se. Conta com os amigos, que pouco tempo têm. Ainda não sabe usar o telemóvel que recebeu da família. Não tem teclas. Resiste. Enquanto caminha, deambula pelos passeios da infância, com dificuldade em reconhecer o lugar em que viveu. A cultura mudou. É quando lembra-se dos livros. Talvez tenham sobrevivido, pensa. Resolve então procurar uma livraria. Depois de passar por farmácias, uma infinidade de lojas de telemóveis e acessórios, infindáveis salões de beleza, restaurantes de fast food, encontra uma solitária livraria. Finalmente, um reduto de paz. Um portal para a consciência. Um remédio para não enlouquecer nesta vida frenética chamada presente. E por um instante acredita estar a sonhar acordada, em um mundo que agora é só seu. 

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