Muitos dizem: os professores não falharam! Mas devemos antes dizer: os professores não falharam aos estudantes. Em boa verdade, um professor preocupa-se com os seus estudantes, não só durante o ano, mas também na fase final dos exames, muito em particular nos anos finais do secundário. E estamos em dívida perante os professores que, além dos seus afazeres diários na escola, ainda encontraram forças para aguentar, fora de horas, esta desorganização maciça e cumpriram.
O atual ministro segue a cartilha da preocupação maior: deixar o nome ligado a esta ou àquela medida avulsa. Os professores são instrumentos, os estudantes podem ser carne para canhão, tudo com vista a marcar na parede o seu ministerial nome a vermelho-sangue. E não precisamos de ser emocionais, basta-nos constatar os factos.
A Suécia, por aqui muito reverenciada como exemplo a seguir, quando a digitalização dos exames nacionais deu problemas, precisamente no ano passado, decidiu adiar as medidas pelo menos até 2028, para analisar melhor o sistema a implementar, se for caso disso. Na Suécia, os alunos foram a fonte principal de preocupação face ao ego do seu ministro da Educação. Esta preocupação não se limita aos exames. A Dinamarca, a Finlândia e os Países Baixos decidiram banir os tablets e livros digitais para voltar ao livro em papel, em particular quando os resultados de aprendizagem dos alunos começaram a piorar. Em Portugal, temos um ministério que ainda nos vende o maná dos livros digitais. Andamos sempre atrasados.
A digitalização nem sempre é a solução. Os seres humanos são seres analógicos. É por isso que os conta-rotações e velocímetros dos carros não usam apenas dígitos. No final dos anos 80 do século passado, a Fiat e a Ford introduziram no tablier a velocidade e as rotações em dígitos — queriam parecer modernos —, mas o ser humano não conseguia ter a perceção do valor das grandezas com os números sempre a saltar enquanto olhava para a estrada. Por isso, os veículos voltaram às barras, ou aos ponteiros, que se movem ou deslizam em lugar de terem apenas números a saltar no tablier. A digitalização é útil em muitas coisas, noutras não!
Os exames nacionais só têm razão de ser para amortecerem as diferenças de nível de avaliação interna entre escolas. Ou seja, quando os estudantes concorrem ao concurso nacional de acesso à universidade usando em parte a nota de exame, todos estarão em igualdade de circunstâncias, para cima ou para baixo. O que se passou nos exames este ano deixou de garantir essa igualdade, que é, afinal, o objetivo pelo qual os exames existem. Exames corrigidos deficientemente, não por culpa dos professores, mas por desorganização do Ministério. Estudantes que sabem a nota dias antes dos colegas, podendo preparar-se para a 2.ª fase com maior cuidado. Onde está a igualdade?
A isto junta-se uma plataforma que, como já se sabia desde o ano passado, tinha problemas que não foram corrigidos. Mas o problema maior foi o da concentração. No sistema manual anterior, os exames eram centralizados numa escola por distrito, devidamente anonimizados. Nessa escola, os exames eram redistribuídos em conjuntos entregues a professores de outras escolas que não a sua, que os corrigiam anonimamente, devolvendo depois os originais e as notas. Este sistema era distribuído em 18 centros, o que reduzia automaticamente a probabilidade de erro. Algo que qualquer engenheiro de sistemas poderia rapidamente explicar ao senhor ministro. Aliás, John von Neumann, o célebre matemático do Projeto Manhattan, provou através da matemática que a resiliência de um sistema exige o fim do controlo centralizado, defendendo o poder da arquitetura descentralizada — e estamos a falar de algo com mais de 80 anos. Ao concentrar os exames todos num mesmo local, a probabilidade de erro aumentou, como ficou provado na prática e von Neumann tinha há muito demonstrado. Não há nada mais prático que uma boa teoria!
Mas a cereja no topo do bolo é ainda outra, o local poderia ser qualquer um do país, mas o escolhido foi Lisboa. Este Governo já nos tinha mostrado que tem uma fraca noção de coesão territorial, e esta foi mais uma prova. Os outros países avançam na descentralização, aqui avançamos na concentração.
Os professores não falharam aos estudantes. Eles conhecem, no silêncio das salas em dia de exame, a angústia que gela as mãos de quem decide o seu futuro numa folha de papel. Durante décadas, a avaliação foi um rito de passagem sereno, e não uma tempestade de incertezas. Porém, quando a vaidade dita as regras e o ego de um governante se ergue bem acima da esperança dos jovens, a tragédia desenha-se com implacável clareza. No altar do seu próprio orgulho, concluímos que este não é um ministro da Educação. É, trágica e solitariamente, um ministro de si mesmo!