Opinião: João de Jesus Nunes | Entre a brincadeira e o engano: o 1 de abril num tempo de desconfiança
Por Jornal Fórum
Publicado em 09/04/2026 09:00
Opinião

Escrevo este texto precisamente no dia 1 de abril – o chamado “Dia das Mentiras”. A data persiste, mas já não é vivida com a leveza de outros tempos. Dir-se-ia que sobrevive, embora sob suspeita.

A tradição mantém-se em muitos países, com partidas, notícias humorísticas e pequenas provocações entre amigos, colegas ou até marcas. Durante séculos, este foi um dia em que o engano era aceite como jogo social – uma espécie de licença coletiva para brincar com a credulidade alheia.

Mas o mundo mudou – e o contexto também.

Hoje, o 1 de abril confronta-se com um problema que ultrapassa largamente a inocência das suas origens: a banalização da mentira. Num tempo marcado pela desinformação e pelas chamadas “fake news”, aquilo que antes era brincadeira pode facilmente confundir-se com manipulação. Não admira, por isso, que muitos órgãos da comunicação social e empresas tenham optado por maior prudência, evitando participar numa tradição que pode ser mal interpretada.

Pessoalmente, confesso que me revejo entre os que olham para este dia com alguma reserva. Não por rejeitar o humor ou ironia, mas porque o terreno em que assentam se tornou mais instável. A Internet e as redes sociais amplificam tudo: uma simples partida pode ganhar dimensão inesperada e transformar-se, em poucas horas, numa falsidade tomada por verdade.

O que está em causa não é o desaparecimento da tradição, mas a sua transformação. As grandes partidas públicas tornaram-se mais raras; persistem, sobretudo, as brincadeiras privadas, mais contidas e, idealmente, mais responsáveis. Há, felizmente, uma consciência crescente de que nem tudo é aceitável em nome do riso.

Será então, o Dia das Mentiras uma tradição em declínio? Talvez não. Mas é, seguramente, uma tradição em adaptação – menos ingénua, mais cautelosa, e inevitavelmente marcada pelo tempo em que vivemos.

A este propósito recordo que já abordei o tema da verdade e da mentira em diversos artigos publicados neste e noutros semanários, nos anos de 2016, 2017, 2021 e 2025. A questão, longe de se esgotar, ganha hoje novos contornos.

Mas como surgiu esta tradição?

Aponta-se frequentemente Catarina de Médicis como estando na sua origem, numa história que cruza calendário e costume. Em 1564, enquanto regente de França em nome de Carlos IX, determinou que o ano civil passaria a iniciar-se a 1 de janeiro. Até então, o início do ano era assinalado no primeiro dia de abril.

A alteração não foi imediatamente assimilada por todos. Muitos continuaram a celebrar o antigo início do ano, mantendo a troca de presentes e votos festivos em abril. Com o tempo, esses gestos passaram a ser vistos como deslocados – e, progressivamente, transformaram-se em ofertas simbólicas ou fictícias.

Assim nasceu uma tradição marcada pela ambiguidade: entre o que parece e o que é, entre o dito e o desmentido.

O 1 de abril adquiriu, desse modo, um carácter quase carnavalesco, em que o engenho de uns se mede pela credulidade de outros. A França, então centro de influência cultural, difundiu o costume por toda a Europa, deixando até hoje a expressão poisson d’Avril, associada ao signo de Peixes, que antecede a data no calendário zodiacal.

Também a natureza parece alinhar neste jogo de ambiguidades. Abril é, por tradição, um mês instável, em que o sol se esconde e reaparece caprichosamente. “Em abril, águas mil” – diz o povo, com a sabedoria de quem reconhece que nem tudo é o que parece.

Ao longo dos tempos, o 1 de abril inspirou inúmeras invenções, sobretudo no universo jornalístico. Houve épocas em que a criatividade se media pela capacidade de enganar – e pelo número de leitores que “enfiavam o barrete”.

Recordo, a esse propósito, uma iniciativa do Diário de Notícias, na edição de 1 de abril de 2000. Em vez de publicar uma falsa notícia, optou por apresentar factos verídicos ocorridos nessa data ao longo da história. Uma escolha feliz, que inverteu o sentido da tradição e mostrou que a realidade pode ser tão surpreendente quanto a ficção.

De facto, não faltam acontecimentos marcantes associados ao dia 1 de abril – alguns deles inicialmente recebidos com incredulidade. A verdade, por vezes, tem essa estranha capacidade de parecer improvável.

E reforço, sim, momentaneamente postos em dúvida pelos mais céticos, até à sua confirmação. Como se verá, a nudez forte da verdade impõe-se ao manto diáfano da fantasia, pois abundam os factos de grande importância histórica numa data em que tantos preferem recorrer à imaginação.

Eis alguns exemplos:

1572 – Início, na Holanda, da guerra da independência.

1876 – Aprovação, em Portugal, o Código do Processo Civil.

1923 – Renovação do acordo entre a administração portuguesa de Moçambique e o Governo da África do Sul para o recrutamento anual (trabalho forçado) de milhares de indígenas para as minas.

1937 – Entrada em vigor da Constituição indiana, com o Partido do Congresso a exigir a independência.

1945 – Início da invasão de Okinawa, no sul do Japão, pelas forças americanas.

1948 – Interferência da URSS no tráfego entre Berlim e a Alemanha Ocidental.

1950 – Transferência da Somalilândia britânica para a Itália; segunda explosão atómica francesa em Reganne.

1954 – Integração da Terra Nova no Canadá.

1962 – A Suíça rejeita, em referendo, armas atómicas.

1963 – Fim da greve de 114 dias dos jornais de Nova Iorque.

1964 – Golpe militar no Brasil, instaurando uma ditadura prolongada.

1973 – O Governo de Harold Wilson manifesta intenção de negociar a entrada do Reino Unido na CEE.

1974 – Reunião preparatória do movimento que conduziria ao 25 de Abril em Portugal.

1983 – Entrada em vigor da Convenção Europeia para a Proteção do Ambiente.

1986 – Abolição do papel selado em Portugal.

1997 – Portugal assume a presidência do Conselho de Segurança da ONU.

 2006 – A missão Ártemis II arrancou nesta quarta-feira de 1 de abril, na primeira viagem desde 1972 que levará humanos à órbitra da Lua. A missão americana serve como um ensaio para o transporte de humanos. Quatro astronautas são transportados dentro da cápsula Órion, que segue acoplada ao foguetão SLS.

Talvez resida aqui a maior ironia deste dia: numa data associada à mentira, abundam factos que nos recordam a força – e, por vezes a estranheza – da verdade.

E ficamos por aqui.

 Uma Páscoa Feliz.

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