Opinião: José de Jesus Nunes | Um século depois, os mesmos fantasmas
Por Jornal Fórum
Publicado em 12/02/2026 09:00
Opinião

Nestes primeiros meses de 2026, vale a pena olhar para trás e revisitar alguns acontecimentos ocorridos há exatamente cem anos. Não por mero exercício de memória histórica, mas porque a História, quando ignorada, tem a inquietante tendência para se repetir.

Se tivéssemos dado ouvidos aos alertas da comunidade científica sobre a forma como estávamos a degradar o planeta e às consequências que daí adviriam, talvez hoje não estivéssemos a viver ciclos sucessivos de catástrofes naturais, nem verões que se transformam, quase inevitavelmente, em épocas de incêndios devastadores. A negligência coletiva cobra sempre um preço – e esse preço está agora à vista de todos.

Assinala-se este ano um século sobre o do processo que conduziu ao chamado Estado Novo, com a ascensão do professor Oliveira Salazar. O ano de1926 abriu com um golpe militar que instaurou uma ditadura e que, mais tarde, daria origem a um regime autoritário de longa duração, após a I República – nascida em 1910 – ter sido marcada por instabilidade política, económica e social. O resultado foi um regime fechado, repressivo e avesso à liberdade, que só terminaria com o 25 de Abril de 1974.

Portugal não foi caso único. No país vizinho, Espanha, vivia-se também um período conturbado sobe a ditadura de Miguel Primo de Rivera, durante o reinado de Afonso XIII. O crescimento dos nacionalismos regionais, nomeadamente na Catalunha e no País Basco, e a incapacidade de resposta política acabariam por conduzir à Guerra Civil Espanhola e, em 1939, à ascensão de Francisco Franco. Instalava-se mais uma ditadura, que, à semelhança da portuguesa, se prolongaria por décadas.

Em Itália, Benito Mussolini consolidava o fascismo após a Marcha sobre Roma, em 1922, iniciando um regime autoritário com a complacência da monarquia. O fascismo italiano viria a servir de inspiração a outros regimes, num tempo em que a força se sobrepunha ao direito e a propaganda substituía o pensamento crítico.

Mussolini sonhava com a criação de um novo Império Romano, uma ambição que não é estranha a alguns líderes atuais, obcecados com grandezas passadas e expansões territoriais. O alinhamento com a Alemanha de Adolf Hitler selou destinos. A Alemanha esmagada pelas indemnizações da I Guerra Mundial, vivia mergulhada na hiperinflação, miséria e instabilidade social. Foi nesse terreno fértil de desespero e ressentimento que o Partido Nacional-Socialista cresceu, conduzindo o mundo a uma nova guerra global.

A França, por sua vez, ocupava a região do Ruhr, rica em carvão – a principal fonte de energia da época – tentando forçar o pagamento das reparações de guerra. Também aqui se demonstrou como a humilhação económica raramente gera estabilidade política.

Os Estados Unidos da América emergiam como potência dominante. A crise bolsistas de 1929 revelou, porém, os perigos da especulação descontrolada e da ilusão de prosperidade infinita. O colapso financeiro teve efeitos devastadores a nível mundial com falências, desemprego em massa e profundas fraturas sociais. Paradoxalmente, essa mesma capacidade produtiva viria depois a ser determinante na II Guerra Mundial e na reconstrução da Europa, através do Plano Marshall, consolidando os EUA como principal potência económica global.

 

Transportar os ensinamentos de há 100 anos para o presente não exige grande esforço. Mudam-se as fontes de energia, os discursos e os protagonistas, mas repetem-se os padrões: ambições expansionistas, fragilidade das instituições, ausência de lideranças responsáveis, corrida ao armamento e o enfraquecimento do multilateralismo.

Um século depois, ao entrarmos em 2026, regressam velhos receios: o avanço de regimes autoritários, a imposição de modelos económicos que limitam o livre comércio, o recurso a tarifas aduaneiras como arma política e as crescente ameaças à liberdade de escolha das sociedades. Ignorar estes sinais seria, mais uma vez, um erro histórico – e sabemos bem como esses erros costumam terminar.

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