Opinião: Marcos Leite | A pior idade
Por Jornal Fórum
Publicado em 16/01/2026 09:00
Opinião

Depois da virada do ano, que em verdade nunca vira, me vejo imbuído de falar de outra falácia do tempo: as idades. Nem sempre reparamos, mas a vida é toda marcada por fases. Mas há uma, terrível, que poucos atrevem-se a definir: a «pior idade».

Que grande mania tem o homem de repartir as coisas que não são, assim, tão divisíveis. As fases da vida, por exemplo. Quando surgimos ao mundo somos recém-nascidos. Em seguida, entramos na primeira infância. Depois de passarmos pela infância, damo-nos de cara com o primeiro período ruidoso da existência, a pré-adolescência. É como a pré-menopausa, não é uma coisa nem outra, mas é. Em seguida viramos de facto adolescentes e aprendemos o que é aborrecimento. Quando as responsabilidades batem à porta já somos “jovens”. Em algumas famílias encontram-se exemplares desses com mais de quarenta anos. Seria evolucionismo? Então, depois de flertar com a responsabilidade, começa a idade adulta, marcada infatigavelmente pela presença das facturas. Nesta fase adormecemos por longos anos. Alguns nela ficam para sempre, até que a saúde indica-nos um novo tempo. Maturidade, melhor idade ou chamemos de terceira idade. Tudo marcadinho, rotulado.

Como reparamos, todas as fases têm bons nomes. Até mesmo a terceira idade tem nome bonito, apesar de seus pares padecerem das doenças e dos efeitos do envelhecimento, o que torna o termo «melhor idade» um tanto quanto duvidoso. Melhor para quem? Só para uma pequena minoria, que durante a vida teve condições de desenvolver hábitos saudáveis. Mas a pior idade não é esta. É a que vem antes, quando ainda temos o espírito jovem, as obrigações da vida adulta quase todas em dia, mas o corpo começa dar sinais de desgaste e desobediência, até para os mais cuidadosos. Ficamos chatos. Já não queremos frequentar os mesmos ambientes. Mudamos, e na maioria das vezes nem nos damos conta. É porque nesta idade – a pior idade – somos em verdade “idosos recém-nascidos”. Não há melhor definição.

É nessa “pior idade” que precisamos revisar a vida. Parece que tudo aquilo por que lutamos, construímos e pensávamos, de uma hora para outra, muda ou perde um pouco o sentido. Há um vazio que se aproxima sem pedir licença. Crenças e certezas passam a ser questionadas, nem que seja na intimidade da solidão. Isso dói. Nos sentimos traídos pela própria vida. Nos vemos obrigados a trocar nossa régua de valores. Quando isso não acontece, pior fica. Permanecemos iludidos, na névoa da incerteza de saber quem realmente somos. E se até aqui ainda não descobrimos para quê viemos ao mundo, é certeza de que teremos uma velhice complicada, pelo menos no aspecto filosófico ou mental. Talvez explique a rabujice dos idosos. Em verdade eles estão certos, mas já não há mais tempo para as mudanças que deveriam ter começado na pior idade.

(…)

Lembro que quando eu era criança, diziam que a vida começava aos quarenta. Naquele tempo a esperança de vida ainda era como um câmbio de quatro marchas. Era comum o desencarne acontecer por volta dos setenta anos, ou antes. Com os avanços que tivemos, chegamos aos oitenta, noventa, mas com que propósito? Eis a razão de buscar conhecermo-nos melhor. Não há momento mais oportuno para iniciar esta imersão filosófica do que a «pior idade». Então, se tens aí por volta de cinquenta anos, seja bem-vindo a ela e se ainda estás pensativo, não leia o final.

O grande problema do autoconhecimento, em comparação aos que vivem a ilusão de que não é preciso pensar nessas coisas, é que quando adentramos nesta seara costumamos não gostar do que vemos. A começar pelo próprio corpo. É difícil passar cinco décadas de vida e perceber que somos um nada, ou que perdemos tanto tempo com escolhas erradas, visões equivocadas, modelos mentais e outras tantas orientações sociais que diferem da nossa verdadeira essência. Mas não fiquemos tristes! Este é o ponto de partida para encerrarmos a vida com chave de ouro. Por mais que as mudanças carreiem dissabores, solidão ou introspecção, ao final havemos de encontrar a paz necessária para a próxima fase da vida. Do que já vi e já vivi, posso crer que aqueles que não se deixam envolver pelo autoconhecimento terão mais dificuldades em fechar suas jornadas. Bendito seja o tempo!

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