Opinião: Martim Leal | Esperar também ensina
Por Jornal Fórum
Publicado em 16/01/2026 09:00
Opinião

Às vezes, pequenas situações do corriqueiro levam-nos a refletir, principalmente a quem tem mentes irrequietas e constantemente a fervilhar. Ninguém gosta de esperar numa fila, ou numa “bicha”, como os portugueses também a apelidam. E a verdade é que é o mais comum no dia-a-dia do ser humano, seja num café, num restaurante, num supermercado ou em tantos outros locais públicos. O tempo ali parece tornar-se mais lento de propósito, só para nos provocar. Olhamos para o relógio, depois para a frente, batemos o pé como tambores em ritmo impaciente, e suspiramos, convencidos de que estamos a perder minutos preciosos da nossa vida. Mas talvez sem perceber, é precisamente numa fila que aprendemos mais sobre nós e até sobre os outros.

É nesse espaço aparentemente insignificante que se revela a natureza humana. Há quem reclame em voz alta, como se o mundo lhe devesse rapidez, e quem aceite a espera em silêncio, com o olhar perdido. Uns refugiam-se no telemóvel, deslizando o dedo no ecrã como quem foge do presente, e outros observam discretamente quem os rodeia, captando gestos, expressões e impaciências. Numa fila, somos todos iguais na espera, mas diferentes na forma como lidamos com ela.

Vê-se de tudo, até pessoas que são capazes de tudo (ou quase) para conseguirem um lugar à frente e ultrapassarem o outro, como se quisessem ser o Lando Norris e vencer uma corrida de Fórmula 1.

Há quem não hesite em empurrar discretamente para ganhar alguns centímetros, ou em murmurar insultos ao funcionário que demora a atender. Alguns discutem entre si por causa de um lugar “perdido” na fila, como se a vida dependesse disso, enquanto outros resmungam impacientemente, batendo os dedos na bancada ou na máquina do café. E não faltam os que cortam caminho descaradamente, olhando à volta com um sorriso de satisfação, convencidos de que o seu tempo vale mais do que o dos outros. Numa fila, a pressa transforma o carácter e revela pequenas maldades que, de outro modo, ficariam escondidas.

Não presenciei, mas em tempos contaram-me que viram alguém no supermercado fazer-se passar por deficiente para lhe concederem a passagem numa fila prioritária. Isto não acontece só no imaginário, é real. E revela a mentalidade das pessoas, que, no fundo, têm o cérebro do tamanho de uma ervilha.

Agora que penso, a vida é bastante parecida com uma fila: ninguém consegue ser sempre o primeiro a chegar, ninguém escapa à espera, mas todos aprendemos algo ao longo do percurso. E se soubermos observar, aceitar e até rir das pequenas impaciências (nossas e dos outros), descobrimos que cada espera tem o seu valor, cada atraso nos ensina paciência, e cada momento aparentemente banal pode revelar algo sobre nós próprios e sobre a forma como lidamos com o mundo.

Gostou deste conteúdo?
Ver parcial
Sim
Não
Voltar

Comentários
Comentário enviado com sucesso!

Chat Online