Opinião: Miguel M. Riscado | Profissionais liberais: essa raça maldita
Por Jornal Fórum
Publicado em 22/10/2026 09:00
Opinião

Se formos dar um passeio ao shopping em qualquer dia aleatório da semana às três da tarde, encontramos jovens com tardes livres, universitários a fugir, pensionistas a merecer o descanso… e profissionais liberais. Quem é esta raça estranha e maldita, olhada de lado, confundida com desempregados ou, pior, com gente sem vontade de trabalhar?

O mundo laboral baseou-se na estabilidade do vínculo de trabalho, em especial no nosso país. A ideia do trabalho para a vida, do ordenado ao fim do mês, do medo do risco, tem passado de geração em geração como uma tradição obrigatória e secular. Surge como uma dupla vertente: o desejo de não deixarmos o interlocutor cair nas nossas tristezas, nos nossos sonhos que tivemos de guardar numa prateleira e tentamos esquecer; e o complexo de superioridade de acharmos que conhecemos intrinsecamente a mentalidade e a vida do nosso interlocutor.

Os profissionais liberais, pelo menos os menos regulados, vivem uma vida de constante incerteza. De não saberem se terão negócio no dia de amanhã, se terão de mudar de vida e de abandonar o seu trabalho de sonho. A flexibilidade de horários não cobre a precariedade de rendimentos, a impossibilidade de recurso a crédito, a não existência de progressão de carreira. Se é verdade que a ausência de um patrão, de um local de trabalho, de um horário, são atributos de alegria para muitos, a não criação de uma rotina, a ausência de certezas, o gambling da nossa própria vida, são angústias sem fim.

Ver a decadência dos profissionais liberais e, em paralelo, ver o apelo a novas formas de trabalho híbridas, mais flexíveis e mais remotas, parece-nos um contrassenso. Verdadeiramente, o que está em causa nestes últimos casos é a atribuição destas características em benefício da empresa e não do profissional-trabalhador. Ou seja, o mundo laboral deixa de se focar nos seus intervenientes diretos, nos produtores e criadores, para se focar numa lógica fordista moderna, de engrenagem ligada à manutenção humana da empresa. E faço esta análise sem um pingo de conotação política. O que está em causa não é mais do que melhorar as condições de produtividade. Ora, se bem sabemos, a produtividade aumenta com a qualidade de vida dos prestadores do serviço. Contudo, surge o velho problema do que deve ocorrer primeiro: a melhoria imediata e, de seguida, as condições, ou vice-versa.

A maioria das atividades prestadas por profissionais liberais tem um carácter pessoalíssimo, que está tão ligado à necessidade do serviço como a quem o vai prestar. A não proteção destes prestadores não é mais do que a diminuição da variedade social e comercial de uma comunidade.

A precariedade atinge todos os trabalhadores e empregadores, não há dúvida. Mas o risco assumido por um empresário, por um profissional liberal, por um freelancer, é o risco do fracasso da sua existência. A ideia criada mentalmente, executada, posta a funcionar e falhada é uma estaca funda no coração dos esperançosos. É mais fácil o comodismo e o comentário à vida alheia, o apelo ao movimento e a pergunta com duplo sentido. O mais difícil é assumir e dar a cara, é pôr em prática o nosso pensamento. A vida de profissional liberal não é para todos. E ainda bem — a maioria não teria o estofo de a assumir, de pagar declarações trimestrais com base em rendimentos recebidos há meses, de procurar novos polos de mercado e de clientes, de gerir uma carteira de clientes e de questionar diariamente a qualidade do seu trabalho.

Já que descontamos tanto, deem-nos também um desconto. É só o que vos peço, se nos virem no shopping numa tarde aleatória a meio da semana.

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