Opinião: José Avelino Gonçalves | A Josefha da Pampilhosa e a estória de um exposto na Roda da Covilhã.
Por Jornal Fórum
Publicado em 22/10/2026 09:00
Opinião

 

         Pampilhosa, Março de 1870.

          A Josefha Ventura é uma mulheraça vigorosa. Atraente para os seus 40 anos. A melhor fiadeira da vila. O seu tear era o mais requisitado para tecer o linho. Um pequeno negócio doméstico. Sozinha com três filhas nos braços. O Manuel Antunes, “Assopra” para os amigos, morre-lhe nos braços. Sem um ai, encharcado pela vinhaça e empanturrado pelos petiscos.

A vila desperta para a primavera. Trinam os rouxinóis nas margens frondosas do rio Unhais. O vento murmura docemente, inspira o amor. A bigodeira negra do cabo Josefino impõe-se. Saboreia os fugazes momentos. Manganão. A Josepha engravida do quarto filho.

O senhor administrador do concelho, João Baptista de Castro, bacharel em leis, trá-la debaixo de olho. É conhecida a sua fogosidade e o carinho para o sexo oposto. Como mulher teve a fraqueza de conceber um filho. Um escândalo. Grávida de couto ilícito. A Justiça obriga as mulheres solteiras, viúvas ou com os maridos ausentes, que se souber andarem pejadas, a dar conta do parto. O bacharel andava eufórico. Toma-lhe conta do ventre.

          Pelas duas horas da madrugada a Adriana Ritta é chamada. A trovoada relampeja para os lados da Lousã. A noite está tenebrosa e quente. Ameaça chuva. A Josepha dizia desatinos. O candeeiro fumega. O barbeiro do Casal do Vale de Pires tosse. Os olhos raiados de sangue. Olhos de insónia e de bebedeira. A Ritta e a Joaquina Barata ajudam ao parto. Um belo rapagão. Traços da bigodeira negra do Josefino.

Casa da Roda, só na Covilhã. Acabaram com a de Góis. Com o pequerrucho, vai um pequeno bilhete, mal-amanhado, quase ilegível. “Chama-se Filipe. Filho de Josepha da Pampilhosa que o há-de ir buscar”.

A chuva parara. As ruas da vila ainda vazias. Os lobos uivam nas penedias serranas. O Manuel da Eira e a Adriana Rita transportam o “embrulhozinho”. Muito agasalhado. Bem aconchegado ao seio farto e fecundo de mulher trintona.

Seguem na direcção de Unhais o Velho. Chegam ao Bodelhão. Entram na igreja. Muito respeitosos. Pedem ao pároco daquela freguesia um bilhete. Para entregar às autoridades. Dizem-lhes para não exporem o “enjeitadinho” na Roda. Arriscam-se a despesas. A câmara da Covilhã não tinha dinheiro para esses devaneios. Deve vários meses de gratificação às amas-de-leite.

Descem às Relvas do Ourondo. Colocam-no suavemente à porta de uma casinha rústica. Muito florida e à entrada do lugar. A criancinha tem a cabeça tapada por um lenço colorido. A outra metade ficara com a Josepha. Prova de que o filho é “das suas dores”. Observam escondidos. A criança chora. Foi uma raparigaça que o apanhou. Filha do José do Barco.

A manhã estava serena. O sol do meio-dia penetrava nas vidraças. O senhor administrador saboreava uns suculentos bifes de cebolada. O funcionário vem incomodar S.Exª. A Josepha deu à luz.

 Oficia ao senhor Subdelegado do Procurador Régio no Julgado da Pampilhosa. No rico papel da Ponte do Sótão.Com a sua bela marca de água. (Goes). Intimam o Manuel da Eira e a mulher a regressar à Covilhã. Têm de trazer o exposto. Sob pena dos rigores da lei.

A criança já se achava baptizada. Na Roda dos Expostos da Covilhã. Acompanha-os uma ama. Paga às custas da mãe. Vinha adoentado, não lhe queria pegar nos peitos. Finou-se passado um dia e duas noites.

O juiz de Arganil manda deter a Josepha. Joaquim Maria d´Oliveira é um humanista e grande crítico da Roda e dos expostos. A ré tem direito a fiança. Paga pelo irmão, serrador do lugar do Sobral de Baixo.

Arganil, casas do Tribunal das Justiças.

As mulheres da Pampilhosa defendem-na. Que a Josepha era incapaz de prejudicar o fruto das suas entranhas. Não foi para encobrir a sua falta, mas para evitar a desmoralização de suas filhas fruto do seu matrimónio. Que se acham em idades críticas. A criança não era de tempo. Ainda a trouxe ao peito. “Enfezadinho” entrega a “alma ao criador”.

“Está ou não provado que a ré Josefha Ventura mandou expor em local não próprio, ou no Estabelecimento da Roda, o filho que concebeu?”

O júri exclusivamente masculino, responde. “Está provado que mandou expor no Estabelecimento da Roda, por unanimidade.”

O processo morre, é arquivado. O bilhete e as fiadeiras da Pampilhosa fazem Justiça.

 

Ilustração de Cláudia Gonçalves

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