O horror das Vitórias Pírricas psicológicas
Por vezes no decurso dos processos psicoterapêuticos, deparamo-nos com a necessidade de ajudar alguém que se apresenta em claro conflito emocional consigo próprio e considera, que esses conflitos são resultado dos problemas que no seu dia-a-dia tem com as pessoas com quem convive e particularmente na forma como apresenta dificuldades em educar os seus filhos.
Poderíamos dar muitos exemplos, mas as dificuldades de relacionamento entre pais e filhos, as relações conjugais conflituosas, os problemas com as entidades patronais, entre outras são apenas uns pequenos exemplos de uma infindável lista.
Por vezes até o paciente procura que as pessoas que os ajudam, como terapeutas, tomem os seus partidos na resolução desses mesmos problemas, e isso é particularmente frequente quando se trata de filhos problemáticos e com problemas comportamentais.
Poderia fazer algum sentido, todavia vejamos o problema por prismas principais, que deixo aqui como pergunta: Porque é que um terapeuta não pode ser um aliado na resolução dos problemas dos seus pacientes, mas antes sim um técnico o mais imparcial possível que procura ajudar o paciente a encontrar ele próprio as melhores soluções para os seus problemas no relacionamento com os seus filhos e outros significativos?
Costumo, com os meus pacientes, no que toca à resolução dos problemas relacionados com a educação dos seus educandos, utilizar o exemplo de uma expressão não muito conhecida da população comum: Vitória Pírrica, esta é a expressão.
Costumo por vezes até incentivá-los a consultar um bom dicionário de história universal, para descobrirem o que tal expressão, Vitória Pírrica, quer dizer (ainda hoje o fiz numa das consultas de fim de dia!).
O leitor que realizar este exercício chegará provavelmente à mesma conclusão de que nós, depois de encontrar referência à origem da expressão.
Segundo reza a história: “Pirro II, Rei Egípcio do séc. III A.C., famoso pelas suas incursões contra os romanos. Em 279 A.C. decidiu encetar uma grande ofensiva contra as cidades italianas Osáculo e Heracleia, apesar dos conselhos de um dos seus sábios estrategas, Cíneas, chamando a atenção para o perigo de tal empresa.
A ofensiva foi para a frente e os Italianos foram derrotados, para o que terá contribuído a grande surpresa que os elefantes brancos do exército egípcio causaram nos estupefactos e impotentes romanos, face àquela nova ‘arma’.
Esta última vitória, porém (a da cidade de Heracleia), terá causado pesadíssimas baixas no exército egípcio; a tal ponto que no discurso de congratulações aos seus generais, Pirro II disse: ‘Outra vitória como esta e estou perdido!’
A partir daí, esta frase passou a ser usada para descrever uma vitória cujos custos são tão elevados que podem pôr em causa o próprio valor da vitória”.
Curiosamente, os anos seguintes foram marcados por derrotas sucessivas de Pirro II; foi expulso da Sicília (onde se havia instalado) pelos romanos e cartagineses, e em 272 A.C., na tomada de Argos, sofreu a sua derradeira derrota, vindo a morrer, segundo reza a história (e digam lá se não é um fim trágico-cómico), quando uma velha lhe atirou uma telha à cabeça, do cimo de uma varanda!
Convenhamos que foi um fim um tanto ou quanto insólito: elefantes brancos contra telhas... de vitória em vitória... até à derrota final!
Isto é uma vitória Pírrica. Algo conseguido à custa de tantos recursos, que pouco sobra de sustentabilidade para os tempos seguintes.
Assim, voltemos à questão: Porque não deve um terapeuta ser aliado do paciente nas suas batalhas pessoais CONTRA os seus filhos ou outros familiares, mas sim um aliado de toda a família no sentido da resolução dos problemas criados entre cada membro da família?
Primeiro: porque esse não é o papel do terapeuta. Como saber onde está o bom senso e a razão, se assim lhe podemos chamar, num conflito de opiniões e vontades, neste caso, entre pais e filhos? Nunca me esqueço que numa situação de conflito, considero sempre três partes; sim, três partes: a dos pais, a dos filhos / familiares, e depois uma terceira parte, que não está necessariamente relacionada com nenhum dos intervenientes, parte esta a que chamo, “a verdade”, ainda que seja uma verdade relativa. Mas a verdade dos factos, e não as suas interpretações.
O segundo grande motivo pelo qual um terapeuta não deve ser visto como um aliado numa batalha que um paciente tenha que travar, por exemplo, numa situação de divórcio, ou numa situação de afirmação de poder do pai face à sua criança, é que o terapeuta corre o risco de, sem se aperceber, estar a tomar partido numa batalha que até pode ajudar o paciente a considerar vencida. Todavia, as batalhas são apenas pequenos trechos de grandes guerras pessoais que acompanham a vida do paciente e dos seus filhos, para sempre, bem como as suas consequências.
Depois de considerada ganha uma batalha, o paciente pode sentir-se seguro para não necessitar mais acompanhamento psicoterapêutico. A questão aqui que fica, é que, tal como no exército de Pirro, as baixas, os danos, os prejuízos emocionais podem ter sido tão intensos e marcados que na batalha seguinte, o paciente necessite novamente de apoio terapêutico, ou pura e simplesmente mergulhe de cabeça, com toda a força que julga ter conquistado com a vitória anterior.
Aí, os riscos são muito mais elevados. Assim, pois, o trabalho com um psicólogo não deve ser o de pura e simplesmente alcançar vitórias Pírricas, ténues, pouco duradouras. Antes sim, deve servir para aprender que tipo de recursos tem para lidar com os problemas, que grau de responsabilidade tem para que a sua vida se encontre no estado em que está, o que poderia ter feito de forma diferente, o que poderá alterar dali em diante. No fundo, em consulta de psicologia deve aprender a conhecer-se melhor: quais foram as batalhas que travou, com que recursos, com que intenção, quais foram os resultados obtidos?
Se depois de pensar bem, concluir que as suas vitórias têm sido Vitórias Pírricas (daquelas que mais cedo ou mais tarde o preço a pagar é demasiado elevado), sugiro que repense a forma como trava as suas batalhas.
Que a vida é feita de batalhas inevitáveis disso não tenho a menor dúvida. Do que estou certo, é que, com inteligência e equilíbrio pisco emocional a maioria das vezes, nós humanos, deveríamos ser capazes de afastar os nossos egoísmos e não travar batalhas que não temos que travar.
Se quisermos, podemos travar a maior das nossas batalhas, ser felizes, e essa já é suficientemente grande.
Prefiro definitivamente ser feliz, a estar certo!
Luís Maia
- Página web de Luis Maia: www.luismaiapsicologia.com
- Email: luismaia.gabinete@gmail.com
- Cédula Profissional da Ordem dos Psicólogos, n.º 102
- Mestre em Neurociências pela Faculdade de Medicina de Lisboa
- Professor Doutorado – Universidade da Beira Interior
- Neuropsicólogo Clínico, Doutoramento (USAL - Espanha)
- Especialista Médico Jurídico – Pós-Doutoramento (Instituto de Medicina Abel Salazar - Porto, Portugal)
- Licenciatura em Neuropsicologia Clínica (USAL - Espanha)
- Licenciatura em Proficiência Investigativa em Psicobiologia (USAL - Espanha)
- Licenciatura em Psicologia Clínica e da Saúde (Universidade de Minho - Portugal)
- Perfil completo no CV- ORCID - https://orcid.org/0009-0008-0241-799X