Disseram, naquela rua que o País está diferente. E não são rumores, é a verdade.
Canta, Sara Correia, uma Lisboa que está apropriada pelo estrangeiro, temática que nos retrata o filme "Santo António". Uma capital que cada vez representa menos o seu país.
Visitavam, noutro dia, a Torre de Belém. Começaram por dizer "good morning", passaram ao "bonjour" e de seguida ao "buenos días". Responderam "bom dia" e "somos portugueses". Talvez até a comida já tenha começado a falar outras línguas. A sardinha assada na brasa tem cara de red fish. A entremeada já parece ter perdido o sotaque. E o pastel de nata, esse, talvez já precise de um passaporte para provar que é nosso.
Inovar é essencial. Ninguém gosta de um país estagnado. Até porque não basta ter nome de país desenvolvido, se não lhe fizermos jus. Mas, se há algo que não se pode perder, é a identidade. Somos portugueses. O povo que sempre lutou para ser independente, para ser um próprio reino.
Podemos ser um povo acolhedor. Até será bom que o sejamos. Mas isso não significa que os nossos valores escorram, ladeira abaixo, como água pelas sete colinas de Lisboa.
Dá que pensar, quando realmente refletirmos. Porque talvez o problema não esteja em quem chega. Talvez esteja naquilo que nós próprios estamos dispostos a deixar para trás.
Um país não perde a sua identidade de um dia para o outro. Não há um momento exato em que deixa de ser aquilo que era. Vai acontecendo aos poucos. Numa palavra que deixa de se ouvir. Num costume que se abandona. Numa tradição que passa a ser apenas uma atração turística. Num prato que muda de nome. Numa cidade onde já não reconhecemos a língua que se fala à nossa volta.
O que diziam naquela rua, afinal, é verdade. Lisboa, o país e o mundo estão diferentes. E talvez seja precisamente por isso que há que lutar contra essa insinuação de que, para evoluirmos, temos de deixar para trás aquilo que somos.
Provar que Portugal (o nosso cantinho à beira-mar plantado), continua a ser único na sua plenitude. Porque podemos mudar. Podemos crescer. Podemos inovar. Podemos abrir as portas ao mundo. Mas sem nunca nos esquecermos de que, antes de sermos cidadãos do mundo, somos também herdeiros de uma história, de uma cultura, de uma língua e de uma identidade.
E isso não se pode perder.