Há sempre quem veja o copo meio cheio e quem prefira, com a habitual solenidade, anunciar que está meio vazio — provavelmente porque ninguém se deu ao trabalho de lhe perguntar se, por acaso, queria beber.
Perante o mesmo problema, há quem esteja predisposto, disponível para ouvir outras opiniões e, num excesso quase irresponsável de optimismo, consiga encontrar oportunidades. Depois há os outros: mais seguros de si próprios, mais convictos das suas certezas e, naturalmente, possuidores de uma sabedoria que dispensa ouvir quem quer que seja. Esses descobrem imediatamente dez razões para não aceitar, onze para não fazer e, se lhes derem tempo, uma dúzia para explicar por que razão o problema, afinal, nem sequer existe.
O optimista olha para uma situação difícil e pensa: “Bom, isto talvez me ensine alguma coisa.”
O pessimista, sempre atento para que nenhuma oportunidade de desanimar seja desperdiçada, responde: “Sem dúvida. Vai ensinar-te a não repetir este erro.”
No fundo, ambos têm razão. E isso, convenhamos, é particularmente inconveniente, porque obriga a admitir que a realidade não se deixa dividir tão facilmente entre os que sabem tudo e os que, aparentemente, ainda têm a ousadia de pensar.
Talvez a verdadeira sabedoria esteja precisamente em conseguir olhar para os dois lados: acreditar que as coisas podem melhorar, sem, por isso, fechar os olhos ao que pode correr mal. Uma ideia aparentemente simples, embora reconheça que possa ser excessivamente exigente para quem prefere conclusões prontas.
É precisamente nesse sentido, e neste meu persistente e incómodo “olhar atento”, que volto a referir — porque pelos vistos há assuntos que precisam de ser repetidos até que alguém repare neles — o estacionamento caótico no parque situado entre a Central de Camionagem e o Jardim do Lago.
Temos, entre outras pequenas maravilhas da organização urbana:
Carros estacionados em segunda fila;
Carros estacionados em filas duplas e triplas, porque aparentemente uma fila simples seria uma demonstração excessiva de disciplina;
Carros estacionados na faixa de rodagem, nalguns casos durante dias sucessivos, transformando o espaço público numa espécie de parqueamento privado por tempo indeterminado.
A PSP, quando chamada a actuar, depara-se com a extraordinária dificuldade de não poder actuar convenientemente porque os lugares não estão marcados.
E aqui está uma daquelas situações verdadeiramente fascinantes: temos carros mal estacionados, temos uma evidente perturbação da circulação e temos quem chama a atenção para o problema. Falta apenas aquilo que seria provavelmente o detalhe menos importante de todos: resolver o problema.
Os optimistas, esses perigosos seres que ainda acreditam que uma chamada de atenção pode servir para melhorar alguma coisa, entendem este olhar atento como aquilo que é: uma tentativa de alertar para uma situação que merece ser corrigida.
Os pessimistas, naturalmente mais prudentes e muito mais protegidos contra o risco de qualquer solução, talvez considerem tudo isto inoportuno, inconveniente, maçador ou simplesmente inoportuno — porque uma preocupação repetida torna-se, pelos vistos, muito mais incómoda do que o próprio problema.
Pela minha parte, como optimista — essa espécie teimosamente persistente que ainda acredita que os problemas podem ser resolvidos — continuarei a chamar a atenção sempre que tal se justificar.
Aos pessimistas fica, naturalmente, a tranquilidade de poderem continuar a achar tudo isto desnecessário.
Afinal, se nada for feito, poderão sempre dizer que tinham razão.
E há poucas coisas mais reconfortantes para um pessimista do que um problema por resolver.
Jorge Pombo, ex presidente CM Covilhã