A Covilhã continuava em festa, desde as Marcha de S. João, prolongando-se verão adentro…
Em cada manhã, a cidade acorda com a brisa da montanha, encontrando a paz no seu mais belo esplendor. É como se uma janela aberta para os verdes a recebesse de braços abertos numa alvorada cândida, plena, majestosa, beijada pelo sorriso terno do sol. E a beleza do amanhecer apodera-se do íntimo ardente em desejo de paz.
Da Serra se vai descendo como ao encontro com a “cidade fábrica, cidade granja”, onde as memórias e a história de lãs e teares trazem à ribalta caras lindas, corpos distintos, bailarinas esmeradas e músicas compostas a primor.
As noites são de folguedo e a magia acontece… E, sempre que há festas, um par elegante de vestidos aveludados surge, onde menos se espera, como se desejasse desenrolar a história de uma cidade criada no macio da lã e na frescura da neve. E o par enamorado surge naquela reentrância da Rua do Cotovelo, onde traços manuelinos nos levam atrás na história… E o par vai deslizando pelas ruas de Santa Maria, embrenhado em pleno enamoramento, em beijos na cândida noite…enquanto se vão abrindo também para o céu as janelas da zona histórica.
Mas … ora se vê o par dançando elegantemente na calçada empedrada em frente à Igreja de Santa Maria, ou mais abaixo onde começam a ouvir-se os pregões do mercado ou da praça, com os cheiros a manjericos e se ouvem os beijos repenicados das criadinhas de avental branco que namoriscam ou se deixam namoriscar pelos soldados!
As janelas se abrem em curiosidade ímpar, no ensejo de descobrir o segredo daquele par, mágico ou enfeitiçado, que corre para o Pelourinho onde a memória das feiras e a música do coreto animam os visitantes que sobem à Serra. Quando a manhã ainda não escancarou as janelas para receber o matutino raio de sol, o par namoradeiro ali dança, quem sabe, à espera dum Padrinho, rico fabricante endinheirado que abrira fábrica lá para o Ernesto Cruz, e que mais teima em tomar no Montalto o seu delicioso café matinal!
A magia continua ao encontro da Goldra, onde se acentua o tchic tchac dos teares, a marcha do soldado (um dois, esq, dir) ou o grito estudantil de capa ao ombro e livro no braço com o hino: Gaudeamus Igitur, Jubenes dum sumus… Post jucundam juventutem, post melestam senectutem, nos habebit cellum .
Mas eis que, quando menos se espera, descobre-se o par dançante pela Rua Mateus Fernandes, onde lembramos com respeito e admiração o nosso amigo e covilhanense, historiador e amante da Covilhã, António Pinto Pires. Ali, ele nos lembra e reforça a história de lãs, onde se ouvem ainda os ruídos de outrora, o matraquilhar dos teares que sobe no seu ritmado tchac tchac pela Rua do Rodrigo…
Entretanto o par é de novo descoberto, deslizando depois até à Estação de Caminho de Ferro, onde D. Carlos, homem belo de olhos azuis, esteve com a esposa, D. Amélia e a quem a Covilhã deve a inauguração do caminho de ferro e a ligação com o mundo.
Pois será que aquele par elegante por ali quisesse esgueirar-se mais facilmente para outras paragens, sem se descoberto?
Mistério nunca por demais contado, nunca descoberto, mas ainda hoje se diz que, em dias de festa, se vê um par que dança sem cessar, em abraço eterno, desde o sol-pôr até ao próximo amanhecer, percorrendo a cidade como se pudesse reviver e registar uma história de lãs e teares que imortalizou a cidade.