Opinião: Marcos Leite | O óbvio e o ópio
Por Jornal Fórum
Publicado em 14/05/2026 09:00
Opinião

O dia treze de maio há de ser lembrado por muitos séculos. Em 1888, quando o Brasil respirava os seus últimos dias como império, já independente de Portugal, a Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II (Imperador do Brasil), assinava a chamada Lei Áurea, pondo fim à escravidão no Brasil. Anos mais tarde, em 1917, foi a vez de os pastorinhos da Cova da Iria avistarem a primeira aparição de Nossa Senhora.

Nas duas oportunidades, os direitos humanos serviram como grande inspiração, algo que actualmente anda a faltar no quotidiano do nosso combalido e tenso Planeta Terra. O fim da escravidão e o fim da Primeira Grande Guerra são dois grandes feitos da História, marcando enormes avanços no que podemos chamar de civilização moderna.

Mas hoje não vou falar-vos, nem de escravidão, nem de guerras. Como cronista que sou, vou falar do óbvio. Do óbvio e do ópio. Por vezes mal interpretado, Karl Marx citou a religião como sendo «o ópio do povo», numa alusão de que a fé seria capaz de aliviar o espírito humano. E por falar em alívio, é sempre bom lembrar que estamos a passar por momentos de muita tensão, o que faz com que a humanidade busque noutras fontes, além da religião, alternativas para desfazer os nós que envolvem a trama da vida.

Tenho observado, por exemplo, os vícios do tabaco e das redes sociais. Na semana que passou estive presente numa actividade na Universidade da Beira Interior e não pude deixar de reparar no quanto os estudantes precisam de aliviar as suas tensões ao fazer uso do tabaco. Com um poder de concentração cada vez menor, quiçá causado pela dependência química e a ansiedade, a maioria dos jovens que observei não conseguia manter a atenção por mais de vinte minutos. Era como se uma inquietação tomasse conta do corpo, indicando o momento de relaxar. Telemóvel ou tabaco. Em alguns casos, os dois.

A exemplo do que vi na semana que passou, os professores já devem ter reparado que os telemóveis e o tabaco são, sim, o novo ópio dos estudantes. Como no tempo em que os ingleses praticamente aniquilaram a civilização chinesa, impondo-lhes o vício do ópio, hoje são os jovens a depender, tanto das redes sociais quanto do uso do tabaco. A dificuldade de concentração é notável e preocupante e, possivelmente, tem levado os professores a modificar as estruturas pedagógicas a fim de conseguirem desenvolver o raciocínio lógico de uma maneira eficaz.

Se antes um período de aula, a exemplo do Brasil, tinha duração de, em média, quarenta e cinco minutos, justamente por conta do declínio da concentração cerebral, hoje nota-se que este tempo está a cair cada vez mais. Neste cenário e, tendo em conta que as próximas gerações a chegar à Universidade estarão ainda mais dependentes deste novo ópio, caminharemos para um colapso na aprendizagem do ensino superior, o que, num futuro próximo, produzirá efeitos semelhantes aos da Guerra do Ópio, de meados do século XIX.

É preciso que as autoridades de saúde acordem para a gravidade deste problema e possam identificar políticas públicas que sejam capazes de mitigar os riscos que isso trará para o futuro, não só de Portugal, como destes jovens viciados em redes sociais e tabaco. Se por enquanto tudo aparenta ser só uma questão comportamental, ali adiante veremos o malefício causado pela falta de concentração, pelo declínio da aprendizagem e, infelizmente, pela queda acentuada nos níveis de inteligência dos nossos jovens. Não é só um telemóvel. Não é só um cigarro. É um problema de saúde pública cuja desinteligência pouco se fará notar. Basta agora saber quem está a lucrar com este fenómeno.

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