O assunto surgiu-me quando conversava com duas amigas, mulheres adultas, sobre as questões do feminismo, da sensualização da sociedade e da liberdade ainda não alcançada pelas mulheres. A tal «des-igualdade» de género. O facto é que a prostituição é considerada a mais antiga profissão humana. Lá está, contra o tempo e os factos não se pode contrariar, apenas compreender.
E por falarmos em tempo, que para trás se chama história e para a frente se chama futuro, tão antiga é a prostituição quanto o facto de que envelhecemos. Por isso, mais cedo ou mais tarde, há sempre uma porta na qual o ser humano acaba por bater. Dos cabarés aos lares. Tudo é questão de tempo. Aqui não me refiro a um lar como vemos nos contos. Refiro-me ao que Valter Hugo Mãe tensiona em “A máquina de fazer espanhóis” ou mesmo como a escritora Valérie Perrin descreve em “Os esquecidos de domingo”. A esta altura o leitor já se deve ter perguntado: que raios tem a ver a prostituição com os lares de idosos?
Para um cronista, acostumado a querer simplificar o que é demasiado complexo ou a complicar o óbvio, trata-se de um assunto que guarda alguma relação. É exatamente isto que pretendo aqui explorar. Em primeiro lugar, o tema merece respeito. Até porque as «prostitutas» são antes de tudo, mulheres. E os lares? Bem, os lares, por serem negócios e não pessoas, também merecem respeito, desde que haja reciprocidade para com aqueles que lá são abrigados. Como sabemos, há muitos que maltratam os idosos, como também deve haver homens que fazem o mesmo às prostitutas.
A questão central deste debate reside num contexto social. Se nos perguntarmos “por que razão existem prostitutas”, certamente encontraremos a mesma resposta se trocarmos o termo «prostitutas» por «lar de idosos». Ambos têm origem sociológica. Enquanto negócio ou oportunidade, ambos buscam atender uma demanda: a necessidade daqueles que não têm tempo. A primeira, existe desde os tempos bíblicos. O sexo fácil, tipo take away. Paga-se e vai-se embora. Sem amor, sem perguntas, unilateral, simplesmente para satisfazer os instintos, como bichos, percebe? A segunda, um fenómeno da modernidade, fruto do envelhecimento, da longevidade e da baixa taxa de natalidade das últimas décadas. Há velhos de sobra, podem perguntar-se alguns. Não! Simplesmente faltam jovens e adultos para os cuidar. Só em Portugal são três idosos para cada sujeito em idade laboral. Na região da Beira Interior, este número aproxima-se perigosamente dos quatro por um.
Lembremo-nos do respeito, fundamental para poder conversar sem aumentar a temperatura. Esta coluna não serve, portanto, para tentar explicar o fenómeno da prostituição, que é complexo. Tampouco questionar a existência dos lares, o que é óbvio demais. Juízo de valor? Não! Esta tarefa cabe ao leitor (homem), sentado num café a observar o andar de uma empregada de mesa, muitos anos mais jovem. Enquanto se distraem no gozo das suas reformas, bem que poderiam conversar sobre o futuro, enquanto ainda têm tempo de desfrutar com autonomia um bom café ao sol da primavera. Afinal, a velhice nunca deveria ser um problema. Ao contrário, deveria ser vista como uma dádiva, porque pensar nela como algo negativo não deixa de ser uma forma de degradar a vida humana e seu inexorável destino.
O tempo é imbatível. Logo ali estaremos todos, inadvertidamente, a bater às portas dos lares. Os que resistirem, correm o risco de serem «resgatados», como animais errantes que a «sociedade» precisa sacrificar em nome do controle sanitário. Mas não adianta. É paradoxal ver que certos homens que fizeram uso da prostituição para aliviar suas tensões acabem nas mãos dos serviços sociais ou de lares inescrupulosos. Consegues perceber neste termo a correlação? Pois bem, numa situação de hipossuficiência, os idosos correm o risco de receber maus tratos, abusos, tal e qual certas prostitutas uma vez receberam.
A vida é realmente curiosa. Enquanto numa dada altura os «clientes» buscam em jovens indefesas a satisfação dos seus instintos carnais – o que também faz parte da natureza humana – mais adiante, as famílias, ou mesmo o serviço social, acabam por fazer o mesmo com o utente. Invertem-se as posições. Os ativos tornam-se passivos. Quiçá, passam a receber de volta a insensibilidade que outrora permeava suas mais secretas fantasias. Se antes as prostitutas aproveitavam-se da fraqueza masculina – e há quem partilhe desta ideia – agora são os lares que fazem da necessidade mais básica do ser humano (manter-se vivo), razão do seu pão nosso de cada dia, com ou sem escrúpulos.
Vencidos estes pormenores que dizem respeito às leis de causa e efeito, há outro, bem maior, que se manifesta nas relações de consumo e na oportunidade de fazer de um flagelo uma oportunidade de negócio. Não está em causa a proibição ou condenação da prostituição e dos estabelecimentos que dela se aproveitam. O mesmo vale aos lares de idosos. Se há procura, estabelecem-se. Neste viés, tanto a prostituição quanto os lares acabam por ser soluções para o triste flagelo da solidão. E por que há tanta gente vivendo assim, solitária? Seria uma questão de individualismo, de egos descontrolados? As respostas, estas sim, merecem ser estudadas com objetividade científica. Aqui, nos cabe apenas refletir, ensaiar e procurar saber se este modus vivendi que a sociedade nos oferece não estaria fadado ao fracasso humano.
Contra esses argumentos, muitos podem querer resgatar certos conceitos de cariz religioso. Não estaria errado se pensássemos assim. No entanto, a religião é tão antiga quanto a prostituição, que há séculos coexistem na sociedade. O que precisa ser reformado não é o que transparece porque a reforma é íntima, pessoal. Externamente, é preciso, sim, reformar certos conceitos de vida em sociedade, como a estimulação ao consumo exacerbado, o excesso de sensualização, o afastamento da Natureza, a degradação da família e das relações de amizade, a caridade e o cuidado humano. Como resolver essas questões? Fora da reforma íntima e do autoconhecimento, não sabemos. A maçã lá está, morde quem quer. Uma vez que se morde, se aceita viver conforme os padrões sociais impõem ou determinam. Novamente nos vemos diante das leis de causa e efeito. É a vida, mas bem que poderia ser chamada de morte, porque lá no fim, para quem vive assim, tudo vira pó.