Esta semana, vi uma recensão interessante sobre o seguinte problema:
“Dois homens acordam e são os últimos dois seres humanos no mundo. Um deles tem um relógio de pulos caríssimo e o outro não. O que não tem o relógio começa a cobiçar o dono e acaba por assassiná-lo, de modo a apoderar-se do bem”. A pergunta: a ação do homem que mata o outro é errada? A resposta a esta pergunta divide o mundo em dois.
Dirão que é evidente, uma vez que a resposta é de sim ou não. Mas a resposta empregue demonstra uma falsa superficialidade e, sim, uma profundidade imensa. É, diria mesmo, a questão que determina toda a vida e atividade humana como a conhecemos, uma vez que ficamos a conhecer os seus players decisores, quer de grande escala, quer de pequena dimensão. A escolha tomada demonstra a conceção mental de moralidade, de bem ou de mal. Um racionalista puro diria que matar nesse contexto não seria errado, uma vez que não existem consequências imediatas, mundanas, da sua ação. E é nesta área que está a chave para resolver este problema.
A solução “mundana”, no sentido de físico-material, não apresenta solução verdadeiramente humana. O tecido humano global também comporta informação emocional. Empatia, simpatia, justiça/injustiça, necessidade de ação/decisão. Mundo esse que a priori está desligado do sistema de recompensas sociais; pois, se não o estiver, já não se reporta a este plano, mas sim ao oposto — o sistema da aparência, da ganância e do orgulho. Os valores judaico-cristãos que coser o pano ocidental que conhecemos — principalmente nas zonas de influência católicas e ortodoxas — comungam de proximidade e simplicidade. A megalomania erradamente associada a estes valores provém de uma deturpação dos mesmos e, até, de uma usurpação. É isto que acontece hoje na política mundial, com respaldos nacionais.
A política passou a utilizar a narrativa do “bem” para fazer o mal. A própria conceção de adoração à figura política, obsta ao reconhecimento do bem. Como posso olhar para um humano, imperfeito como eu e como todos, e reconhecer, ao mesmo tempo, nele características sobre-humanas? Não funciona. É ilógico, irracional e, acima de isso, de uma falta de moralidade e ética assustadora. Pior que isso é a tentativa de criação de maiorias e minorias. “A maioria silenciosa” e a “minoria oprimida” são jogos de retórica política que ignoram a verdadeira maioria — as pessoas equilibradas, decentes, que procuram, na sua vida quotidiana fazer e espalhar o bem. Os pequenos gestos e palavras, as amizades, as simpatias…tudo isso é desarranjado pela criação do (antigo) novo ideal — a confusão, o ódio, a idolatria.
O mal não prevalecerá. Mas teima em continuar. E aumenta com a equiparação de políticos a deuses. Além a utilização do nome do bem, maxime, Deus, para a tentativa de governo humano, mais não é que o maior desrespeito aos seus pares. Num mundo global de guerras, ódio, interesses ocultos e malignos, sejamos nós, no nosso dia a dia, a espalhar os valores humanos e reais — são estes que prevaleceram no final.