Opinião: Miguel M. Riscado | Ministro Luís Neves
Por Jornal Fórum
Publicado em 26/02/2026 09:00
Opinião

Foi com surpresa e alegria que vi a nomeação de Luís Neves para Ministro da Administração Interna.

            Parecem coisas do destino. No dia anterior à sua nomeação, enquanto deambulava no meu cantinho preferido da internet — o arquivo da RTP — tinha surgido uma menção ao anterior Diretor Nacional da Polícia Judiciária. Tudo tinha começado uns minutos antes com o surgimento, no YouTube, de um excerto do barricado Manuel Subtil, em 2001, nas casas de banho da RTP. Ia suicidar-se depois de um emaranhado jurídico em que a estação havia sido condenada a indemnizá-lo por difamação devido a uma reportagem emitida sobre uma empresa deste 10 anos antes. Já na altura a justiça portuguesa era de uma celeridade admirável. Recuperei então a linha de acontecimentos no arquivo. Depois de longas horas barricado, lá saiu, com braços ao alto, Manuel Subtil, entrando num carro da PJ. Noutro carro, entram vários inspetores, alguns mais familiares que outros, mas que não consegui distinguir. Só depois, vendo o (ex-)programa da SIC Perdidos e Achados, é que dirimi, entrando para um dos carros, Luís Neves. O agora MAI é destacado na reportagem como sendo um dos principais desbloqueadores da situação, sendo, em modo de memória, celebrado por Subtil, entrevistado uns 6 anos depois.

            Isto é um fait diver, mas não foge ao que tem sido o comportamento e a postura de Luís Neves na sequência.

            Mas recentemente, em Audição Parlamentar, veio desmistificar algumas lendas sobre a criminalidade em Portugal, nomeadamente a sua ligação abusiva à imigração. Destoou, logo aí, deste Governo. Daí a minha surpresa quando, no dia seguinte àquela epopeia bombástica, é apresentado como nova cara do tão mal ministrado Ministério. Surpreendeu-me a sua nomeação, mas não me surpreende a sua aceitação. Tenho uma ideia de Luís Neves como indivíduo aventureiro e corajoso. A sua ligação de mais de três décadas à PJ confirmam-no, bem como a progressão interna que teve na organização. O seu perfil interventivo e direto causou-me alguma estranheza — principalmente no caso do alegado ataque bombista (mais um) à Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa —, mais pela ausência dessa naturalidade nos seus antecessores, mas rapidamente se entranhou enquanto voz moderada, racional e séria.

            Estas características que agora enunciei têm faltado na política nacional em geral, e neste Governo em particular. Surge agora, depois da surpresa, o receio. O receio de que a gota de tinta não seja suficiente para alastrar por todo o pano e que este a absorva. As figuras independentes, quando transformadas em políticos, tendem, quando não seguem a batuta partidária, a ter mau fim. Não duvido da persistência de Luís Neves. E por não duvidar — não o posso fazer de um individuo com um currículo tao impar — surge a esperança, que termina o medo.

            A esperança, fundamentalmente, que este novo Ministro consiga reagir célere e cabalmente à crise deixada por Maria Lúcia Amaral. A esperança de que consiga resolver os problemas dos mais afetados pelas mortíferas cheias. A esperança, finalmente, que nos consiga dar esperança numa figura de Estado — esta é mesmo fundamental, depois do marasmo que temos visto. Boa sorte, Luís Neves. 

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