Eu sou o que passeia a vida,
E aguardo fogaz lamento
Dos chorões eternos da morte,
Enfermos e sem sorte, vituperam gritos violentos,
Ignomínias de arrependimento,
Histerismos surdos ao passar.
Sou eu mesmo! Quedem-se as hesitações!
Levo o término ao que foge dele, ao que o quer
E ao que o negligencia.
Achais que o gosto de ser?
Guiar almas como quem
Circula de braços dados com o nada,
Inferir as vivências de cada um, transformá-las
Em dúbia eternidade escura...
Sou eu a própria morte, o corvo que ronda
A cama velha e lúgubre.
Sou eu quem caça a putrefação,
E que dela alimenta a sombria orquestra onírica (ou disfórica, a perspetiva varia).
Sou eu a máscara com bico, e quem a veste, e quem a faz.
Porque ser morte
É ser tanto quanto a vida,
E balançar com ela como dois
Infantes num parque, ora acima, ora abaixo.
Sou como bom vinho. Quando cesso, fico
No paladar de quem o sentiu, e adormeço no vazio.