Opinião: Marcos Leite | Entenda as tendas
Por Jornal Fórum
Publicado em 05/11/2026 11:57
Opinião

Otto von Bismarck, o « Chanceler de Ferro», foi o aristocrata alemão responsável pela unificação da Alemanha. Na cultura popular, Bismarck ficou eternizado por uma frase, que talvez nem seja de sua autoria: «os cidadãos não dormiriam tranquilos se soubessem como são feitas as salsichas e as leis».

Iguarias à parte, sempre que pensamos no conceito de Estado, lembramo-nos de que é preciso dinheiro para que ele exista e cumpra o seu papel. No Estado de Bem-Estar Social, do qual a Europa é referência para o resto do planeta, os impostos representam importante fator no desenvolvimento das políticas públicas. Por esta razão, pensamos sempre na relação «custo-benefício». Uma carga tributária elevada num país com bons serviços públicos é sempre o objetivo de quem segue o princípio do Bem-Estar Social.

O «Tax Freedom Day», que na tradução quer dizer «o dia em que ficamos livres dos impostos» não é uma invenção recente. Na prática, é um cálculo que considera a relação entre a carga tributária e o PIB. Em Portugal, no ano de 2026, o cálculo apontou o dia 3 de junho como a data eleita. Teoricamente, a partir deste dia, todo o rendimento pessoal passaria a ficar no bolso do trabalhador. Atualmente, cerca de 43% do que se recebe é destinado exclusivamente ao pagamento dos impostos.

Alguns países da União Europeia têm a data marcada para além da que temos em Portugal. São mais dias a trabalhar para o Estado. Em média, a carga fiscal europeia é de 44,6%, mas é preciso relembrar que o salário mínimo nacional é ligeiramente maior do que o português. Nessa proporção, ressalvada alguma variação no custo de vida, os trabalhadores portugueses sofrem ainda mais, especialmente com o componente da habitação.

Desde que cheguei a Portugal o salário mínimo subiu dos 665 euros para os 920 euros. Um aumento de aproximadamente 38% em cinco anos. No que toca à habitação, o valor das rendas subiu tanto ou mais que o valor dos salários, mas o valor das casas subiu mais de 100%. De facto, um dado relevante neste cenário de crise na habitação. E quem comprou estas casas? De onde vieram estes recuros? Estas são perguntas que deveriam ser esclarecidas.

Mas afinal, quais são as políticas públicas que Portugal tem adotado (ou adotará) para mitigar o problema da habitação? Para o Primeiro-Ministro, há sempre a questão do Orçamento do Estado. Não se pode ir além do que a lei prevê e as medidas acabam por ser como um «cobertor curto»: não servem para cobrir o corpo todo. O que farão os deputados da Assembleia da República? Aumentar impostos? Cortar gastos? E quanto aos salários?

Nem sempre as questões económicas podem ser resolvidas a contento. No entanto, é preciso pensar para a frente. Olhar os serviços públicos com a lente do orçamento é como caminhar a olhar para os pés. Um olhar que deixou de perceber que a procura fez aumentar os preços dos imóveis e o custo de vida de todos. Passados tantos anos da unificação da Alemanha, são os portugueses que agora estão sem dormir. A dormir em tendas, entenda-se! Infelizmente não perdem o sono por conta de como são feitas as salsichas ou as leis. Perdem porque o tempo passou e nada foi feito para mitigar o problema da habitação. Um problema que já não é de hoje.

 

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