Bernardo da Costa Montez, o filho esquecido da terra
Maria Duarte (Estudante de Mestrado em Jornalismo)
Por Jornal Fórum
Publicado em 01/10/2026 16:04
Cultura

O esquecimento é o destino de muitos, mas há nomes que resistem em silêncio ao tempo à espera de que alguém conte a sua história. Bernardo da Costa Montez é um dos rostos esquecidos da sua terra. Nascido a 27 de setembro de 1826, na freguesia de Salvador na Covilhã, este pintor dono de um talento notável viveu e morreu quase na sombra. Hoje, aos 200 anos do seu nascimento, a sua cidade devolve-lhe o reconhecimento e o lugar que sempre mereceu.

Durante muito tempo, Costa Montez foi apenas associado a algumas obras locais. Morreu em 1890, aos 64 anos, e há poucos registos do seu percurso e vida. No entanto, como revelou Carlos Madaleno, coordenador do Museu de Arte Sacra, a investigação que agora culmina começou em 2011, sendo a primeira vez que se conseguiu reunir tanta informação sobre o artista. Graças a um antigo passaporte rumo a Lisboa, documento obrigatório na época para se viajar entre cidades, sabe-se que o pintor tinha 1,54 metros de altura, cabelos e olhos castanhos e o que os registos da altura chamavam de “pele natural”.

A curiosidade sobre o artista aguçou-se quando o museu identificou três bandeiras processionais, assinadas de forma distinta com “Montez” e “Faustino Montez”. Uma análise minuciosa permitiu verificar que o traço, a paleta de cores e os pigmentos eram idênticos, impulsionando a investigação.

Foi na capital, aos 24 anos, que a sua vocação encontrou espaço para brilhar e crescer. Ingressou na Academia de Belas-Artes como “discípulo voluntário”, ou seja, podia assistir às aulas, mas não tinha a obrigação de fazer exames nem o reconhecimento de um aluno oficial. Para passar a “discípulo ordinário” e ter obrigações formais, tinha de provar o seu valor.

E o reconhecimento não tardou. No primeiro ano, numa aula de Desenho Antigo, onde os alunos tinham de recriar uma réplica de grandes mestres, Costa Montez fez a reprodução da “Ressurreição de Cristo”, do pintor Van Loo, com maestria que lhe valeu um prémio “ACCECIT”. Trabalho este que está até hoje guardado na Faculdade de Belas-Artes, provando que o jovem da Covilhã tinha um talento sublime.

São poucos os que sabem, mas a sua arte marcou profundamente a região. Quem entra na Capela de São João de Malta pode admirar o seu “Batismo de Cristo” no painel do retábulo da tribuna. Pintou também apóstolos, bandeiras para procissões e vários ex-votos (obra de agradecimento religioso) a pedido de famílias locais, como a de José Caetano e as irmãs Maria José Arnaut e Rosa Fazenda. As pesquisas do museu estenderam-se a municípios vizinhos, tendo sido identificado, com a colaboração de Penamacor, um ex-voto na Ermida de Nossa Senhora da Póvoa. Mas este não se ficou pela religião, deixou estudos a lápis e uma obra de crítica social pintada a óleo intitulada “O dinheiro vale tudo, venda de mulheres”.

O grande mistério da sua vida prende-se com o quão longe poderia ter chegado. O pintor e professor espanhol Rodolfo Passaporte, o único artista a dedicar-lhe um curto parágrafo no passado, chegou a afirmar que o covilhanense teria estudado em Paris. Contudo, não foi encontrado qualquer documento que o comprove.

Costa Montez, apesar de não ter o reconhecimento na sua terra, teve uma produção muito profícua no concelho da Covilhã. Se o seu talento era, nas palavras de Carlos Madaleno “muito, muito bom”, o facto de ter ficado longe da capital e dos grandes mestres da época limitou a sua evolução e fama e cobrou-lhe o preço do esquecimento.

Com o objetivo de corrigir esta falha da história local, o Museu de Arte Sacra da Covilhã inaugurou, a 11 de setembro, uma exposição inédita sobre o artista, onde reuniu mais de 20 obras. A joia desta exposição é, sem dúvida, o seu autorretrato, guardado pela família, e que em 1967 esteve patente no Orfeão da Covilhã. 

Exibir este espólio é apenas o ponto de partida. “A investigação não está de forma alguma acabada”, assegurou Carlos Madaleno. O museu tem agora um duplo propósito: pretende alcançar a comunidade escolar na apresentação deste talento e desafiar investigadores a continuar o estudo, para que este filho da Covilhã nunca mais seja esquecido.

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