Opinião: Paulo Rosa | Entre o teatro político e o extintor sem carga
Por Jornal Fórum
Publicado em 30/07/2026 09:00
Opinião

Há dias em que a política local parece uma ópera representada dentro de um aquário: muito movimento, muitas bocas abertas e uma notável escassez de oxigénio. 

Na Covilhã, discute-se uma coisa bastante menos excitante para os caçadores de audiências, mas ligeiramente mais importante para quem aprecia continuar vivo: o Plano Municipal de Emergência e Proteção Civil. 

O documento tem mapas, quadros, tabelas e palavras suficientemente técnicas para fazer qualquer cidadão sentir que está protegido por uma muralha de burocracia laminada. É um belo objeto administrativo. Quase se ouve o som reconfortante dos carimbos. 

O problema começa quando se abre o documento. 

Porque ter um plano de emergência não significa necessariamente estar preparado para uma emergência. Da mesma maneira que possuir um livro de culinária não transforma ninguém num grande cozinheiro, sobretudo quando a cozinha está a arder. 

O Plano apresenta uma redação pouco clara sobre quem o pode ativar. Um pormenor, certamente. Afinal, quando o fogo estiver a subir a encosta, a neve bloquear acessos ou uma tempestade cortar comunicações, haverá seguramente tempo para organizar uma pequena tertúlia jurídica e decidir quem tem competência para telefonar a quem. 

Talvez se possa convocar uma comissão. 

As chamas, como se sabe, são criaturas muito respeitadoras dos procedimentos administrativos. 

Existem também riscos devidamente identificados, mas nem sempre acompanhados por respostas operacionais suficientemente concretas.  

É a velha arte portuguesa de diagnosticar com grande solenidade e tratar com um encolher de ombros. 

Sabemos qual é o perigo. Sabemos onde pode acontecer. Sabemos quem pode ser afetado. Quanto ao que fazer exatamente, logo se verá.  

A improvisação nacional continua a ser a mais resistente das infraestruturas. 

Faltam ainda metas, prazos e responsáveis claramente definidos para várias medidas. Nada de especialmente grave. Apenas aqueles pequenos detalhes que distinguem uma intenção de uma ação, uma promessa de uma política e um plano de um monte de folhas muito bem agrafadas. 

Há até referências tecnológicas desatualizadas, como a menção a uma rede 3G da MEO já desligada. É um toque vintage. Uma espécie de arqueologia digital inserida num documento destinado a responder ao futuro. 

Talvez, na próxima revisão, se inclua também o fax, o pombo-correio e um cidadão munido de bandeiras para comunicar entre freguesias. 

Mas não sejamos injustos. O documento contém trabalho técnico relevante. Tem cartografia, identificação de riscos, inventário de meios e enumeração de infraestruturas. É uma bela fotografia do território. 

A dúvida é saber se, quando a fotografia começar a arder, alguém terá água suficiente para a apagar. 

Porque a política séria começa precisamente onde termina o PowerPoint. 

Começa quando se pergunta onde serão acolhidas as populações. Quantas pessoas cabem nesses locais. Se existem geradores, aquecimento, água, camas, comunicações alternativas e condições para receber idosos, pessoas com deficiência ou cidadãos dependentes de equipamentos elétricos. 

Perguntas maçadoras, reconheço. 

Não têm o brilho de uma inauguração, não produzem fotografias com fitas para cortar e dificilmente geram uma publicação triunfal nas redes sociais. Mas têm a inconveniente característica de poderem salvar vidas. 

Eis o drama da política contemporânea: apaixonou-se pelo anúncio e perdeu o interesse pela execução. 

Confunde-se aprovação com preparação, apresentação pública com capacidade operacional e propaganda com governação.  

É como comprar um guarda-chuva, deixá-lo fechado na arrecadação e proclamar vitória sobre a chuva. 

Um município não demonstra competência apenas quando inaugura uma rotunda, apresenta uma estratégia ou exibe um dossier espesso perante as câmaras. 

Demonstra-a quando falta a eletricidade. 

Quando uma estrada fica cortada. 

Quando a serra arde. 

Quando uma aldeia fica isolada. 

Quando uma família precisa de ser retirada de casa às três da manhã e já não há tempo para procurar a página certa no documento. 

Exigir que o Plano seja corrigido, atualizado e tornado operacional não é atacar a Proteção Civil. É precisamente o contrário. 

É respeitar os bombeiros, as forças de segurança, os técnicos, os voluntários e todos aqueles que, quando chegar a emergência, não poderão combatê-la com comunicados, intenções ou notas de rodapé. 

Esses terão de trabalhar no mundo real. 

Um lugar pouco recomendável para planos vagos. 

Por isso, talvez convenha recordar uma ideia simples, embora perigosamente pouco moderna: aprovar depressa não é preparar bem. 

E, em matéria de proteção civil, aquilo que hoje parece apenas uma frase mal redigida pode amanhã transformar-se num atraso, numa hesitação ou numa porta que ninguém sabe quem deve abrir. 

Os planos de emergência não são escritos para os dias tranquilos. 

São escritos para o momento em que o telefone toca, a luz falha, o fumo sobe e já não há tempo para convocar uma reunião destinada a corrigir o que ficou mal escrito. 

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