O advento das tecnologias de informação, da rádio à internet amplamente acessível, deu-se, em paralelo com a descoberta — na verdade, constatação — de que o ser humano se aborrece facilmente com a realidade à sua volta. Ainda que esta seja mais imprevisível que a ficção, os momentos de tédio e aborrecimento levam o humano a um estado de movimento, de tentativa de término desses momentos. Não é, por isso, incomum haver uma desvirtuação ou um embelezamento da realidade para que a notícia ou a reportagem alcancem um público mais alastrado e, além disso, de modo a que o prendam por mais tempo. Os loops informativos, as emissões especiais, os alertas, todos têm origem e derivam da necessidade humana de estar em contacto com uma realidade aumentada e mais sensacionalista que a que conhece. Para poder, quando acaba finalmente a ligação à máquina nozikiana, que afinal é de sofrimento e vida alheia, e não de prazer próprio, dizer que “ainda bem que a minha vida não é assim”.
Não podemos, hipocritamente, dizer que todos os assuntos têm igual interesse objetivo. O surgimento de media de entretenimento sobre assassinos em série americanos terá mais audiência que qualquer análise de mercado financeiro. E isso não é necessariamente mau, desde que haja uma visão crítica e analítica, isto é, de aprendizagem, do que aconteceu. No exemplo dado: como podemos analisar sinais de alerta em pessoas com tendências criminosas, como pode uma vítima aumentar o seu nível de proteção, como podem os órgãos de polícia criminal (ponto importante!!) abordar e, mesmo, antecipar estes casos. Com o acesso geral a motores de pesquisa, raramente a visualização destes casos fica pela série/filme. Já todos, com base naquela ideia da vida alheia, fomos investigadores de laptop. E isso, também, não é necessariamente mau. Quando o grande público começa a perceber que vive numa sociedade corrupta, o autoconhecimento é uma arma fundamental. Quando, com base numa investigação própria, ainda que não académica e sujeita a falhas, toma conhecimento das suas limitações investigativas, mas tem noção que estes pedações de informação noticiosa ou de media de domingo à tarde, existem no seu mundo e não apenas no ecrã, consegue alcançar um nível de crítica primordial no combate a essas realidades.
Mas esta conclusão já foi, há muito, obtida pelos grandes canais de comunicações. Não digo necessariamente a nível nacional, porque acabamos sempre por ir atrás das modas que estão em voga nos grandes canais informativos; esses canais informativos, sim, altamente influenciados por lobbies informativos, ligados a correntes políticas, que escolhem apresentar a informação para o seu público alvo, perdendo qualidade e objetividade. Contudo, quando há casos que afetam esses quadrantes que se tornam impossíveis de ignorar surge uma estratégia mais cabal: a avalanche informativa.
O cérebro humano não é capaz de analisar toda a informação que jorra, sem parar, destes casos mediáticos — por todos, os ficheiros Epstein, que já passaram para obscuridade depois de uma/duas semanas na ribalta. Quando temos acesso a um mar sem fim de papéis, de links, de coisas para ler e analisar, torna-se mais difícil conseguirmos ter uma abordagem completa. E desistimos. E o que parecia uma matéria tão óbvia e tão condenável, passa a viver de fait divers, de graçolas e de memes. Quem perde são, primeiro, as vítimas, e, segundo, a sociedade no geral. Passamos a estar dependentes de intermediários para obtermos essas informações. E quando duvidamos — e a dúvida faz parte do processo informativo — temos que verificar a idoneidade, as fontes e o propósito do transmissor de informação. E mais tempo perdemos a não chegar à informação central, que verdadeiramente interessa. Mas, se calhar, até merecemos isso, por darmos tanto espaço e tanto canal ao comentário, ao invés da investigação profunda. Não é admissível que se dê uma notícia de cinco minutos e um comentário à notícia de dez… e um comentário ao comentário, em mesa redonda, de vinte.