Como todos sabemos, a Venezuela é um país politicamente instável, marcado por uma ideologia que tem gerado profundas divisões e dificuldades. Mas a verdade é que a natureza não distingue ideologias, fronteiras nem regimes políticos.
A terra tremeu no passado dia 23 de junho e, em poucos segundos, edifícios, estradas e vidas ficaram suspensos entre a esperança e a tragédia.
Ainda que estejamos longe, é inevitável não ouvir falar do sucedido. Todos os dias, quando ligamos a televisão, lá estão as "imagens sensíveis" que nos mostram aquilo que acontece a milhares de quilómetros de nós. São imagens que nos chocam, que nos perturbam e que, por momentos, nos fazem esquecer as pequenas preocupações do quotidiano.
Mas a distância não significa imunidade. Nada nos garante que um dia uma realidade semelhante não nos bata à porta. Esperemos que esse dia nunca chegue.
Foi precisamente ao ligar a televisão, na RTP, que algo me chamou particularmente a atenção. Um jornalista relatava que, para conseguir chegar ao local da tragédia, percorreu horas de mota, transportando consigo todo o equipamento de reportagem. Não procurava protagonismo; procurava apenas contar uma história. A história de um povo que, naquele momento, precisava que o mundo o visse.
É este o jornalismo que admiro. É esta a coragem que merece ser exaltada. São estes profissionais que enfrentam riscos, percorrem milhares de quilómetros, dormem pouco, vivem longe das famílias e entram em cenários de guerra, de catástrofes naturais e de crises humanitárias para que nós possamos compreender a dimensão do que acontece.
Não desvalorizo quem apresenta os noticiários a partir de um estúdio. O seu trabalho é igualmente importante e indispensável. Mas há um mérito especial naqueles que estão no terreno, muitas vezes em condições extremas, sem garantias de segurança e movidos apenas pelo compromisso de informar.
A comunicação e os media tem o dever de acompanhar os problemas nacionais, mas também de nos abrir uma janela para o mundo. Quantos repórteres já não sofreram para nos mostrar conflitos, incêndios, terramotos, pandemias ou crises humanitárias? Quantos arriscaram a própria vida para que a verdade chegasse até nós?
Hoje é a Venezuela. Ontem foi a Turquia, Marrocos ou a Ucrânia. Amanhã poderá ser outro qualquer lugar do mundo. As tragédias mudam de cenário, mas há algo que permanece, pois haverá sempre alguém disposto a atravessar fronteiras, desafiar o perigo e contar a história de quem perdeu quase tudo.
Talvez nunca lhes possamos agradecer o suficiente. Mas, da próxima vez que ligarmos a televisão e virmos um direto a partir de um cenário de destruição, vale a pena recordar que, do outro lado do ecrã há alguém que arriscou para que nós pudéssemos ver, compreender e, quem sabe, sentir um pouco mais de humanidade.