Opinião: Teresa Inácio | FOMO vs. JOMO
Por Jornal Fórum
Publicado em 09/07/2026 09:00
Opinião

Sinto que passo a vida a repetir-me sempre que falo da sociedade contemporânea. Seremos nós genuinamente diferentes devido ao meio em que crescemos, ou sofreremos apenas da vaidade insuportável de nos assumirmos como especiais?

A verdade é que atualmente tudo, absolutamente tudo, está meticulosamente rotulado.

Não há escapatória para qualquer neurose, crise existencial ou espirro emocional que tenhamos. Se os glossários modernos da saúde mental fossem impressos, não haveria balança industrial que aguentasse o seu peso, para não falar do volume. Estaríamos a falar de calhamaços grossos, de capa rija, com milhentas páginas perfeitamente paginadas só para catalogar as nossas mais recentes fraquezas em siglas e anglicismos catitas.

Recorrendo à minha habitual bengala narrativa de uma sociedade contemporânea complexa, assumamos de vez: adoramos complicar a própria existência.

Achamo-nos pessoas muito profundas, mas somos apenas exaustivas.

Em termos de ideias e de capacidade prática de vida, temos tudo arrumado em caixas. Caixas devidamente catalogadas com aquelas etiquetas vintage que encomendámos online (de fundo preto e letras brancas em relevo), prontas a serem abertas ao menor espasmo de dúvida ou de incoerência.

O digital consome-nos, mas já não dá para viver sem ele.

Uma vez aberta esta Caixa de Pandora com ecrã tátil e película de vidro temperado, jamais haverá volta a dar.

Resta-nos a ilusão do controlo.

Agora, até os nossos medos ganham nomes gourmet. Siglas esquisitas para leigos que podemos facilmente dominar num tutorial de quinze segundos no TikTok. Pessoalmente já sofria de um destes medos quando ainda nem era moda: o FOMO (Fear Of Missing Out), ou, em bom português, o pânico suado de “ficar de fora”. Aquela necessidade doentia de atualizações constantes sobre trends, marcas, influencers e cancelamentos alheios. O contínuo scroll sem lógica aparente ou necessidade segmentada. Apenas o vício nu e cru. Com tempo, lá controlei o terror de ser excluído por não estar a par de tudo.

Criticávamos os mais velhos por estarem colados 24h aos canais de notícias; agora somos nós, zombies de ecrã na mão, a fazer exatamente o mesmo nas redes sociais, mas eles lá vêm atrás.

Trata-se de um atestado de falência mental.

O excesso de informação a que nos expomos voluntariamente é um contrato predatório que assinamos com a nossa paz de espírito.

E o relatório do famigerado “tempo de ecrã”?

Acabou por se tornar numa ferramenta de tortura passivo-agressiva, que é muito mais assustadora do que tranquilizadora quando avalia o nosso suposto bem-estar.

Mas, como o prolífico mercado da ansiedade tem de se ir renovando para não perder clientes, eis que surge o antídoto, também ele perfeitamente empacotado! Apresento-vos o JOMO (Joy Of Missing Out).

Como se a humanidade precisasse urgentemente de uma sigla nova para justificar o simples, rudimentar e glorioso prazer de desligar o raio do telemóvel. E a ironia suprema é esta: precisarmos de uma palavra validada pela internet para podermos, por breves instantes, sentir a alegria de fugir dela!

Com isto, chamo à reflexão: antigamente, matavam-se a trabalhar para fugir do campo e integrar as luzes dos grandes centros urbanos; hoje, apenas queremos conseguir pagar um retiro de silêncio e regressar ao campo. Porque, pura e simplesmente, tudo se tornou “demais”.

Não sejamos negacionistas: o digital veio para ficar. E posto isto, a questão aqui nunca será proibir de forma puritana; mas sim, saber lidar.

A verdadeira educação moderna passa por domesticar esta droga no nosso sistema de forma subtil, porque os vícios, por definição, são intrusos que chegam sem pedir permissão.

O derradeiro ato de rebeldia contemporânea não é aprender mais uma sigla.

É descobrir os pequenos prazeres de estar, efetivamente, presente.

É saborear a paz profana e absoluta que se instala no exato segundo em que as notificações ficam, finalmente, desligadas.

Gostou deste conteúdo?
Ver parcial
Sim
Não
Voltar

Comentários
Comentário enviado com sucesso!

Chat Online