Hoje, 25 de Abril de 2026, Portugal celebra 52 anos de democracia. Mas importa dizê-lo sem rodeios: o 25 de Abril não é uma liturgia, não é um ritual de calendário, nem pode ser apenas uma cerimónia repetida todos os anos com discursos previsíveis, cravos na lapela e palavras certas no dia certo.
Celebrar Abril é estar à altura da sua exigência transformadora.
O 25 de Abril não nos deixou apenas liberdade política. Deixou-nos uma responsabilidade coletiva: usar a política para melhorar concretamente a vida das pessoas, com justiça, transparência, ambição, sentido reformista e responsabilidade democrática.
Foi essa uma das mensagens mais relevantes deixadas pelo Presidente da República na sessão solene comemorativa dos 52 anos do 25 de Abril. A liberdade não se esgota no direito de falar, votar ou discordar. Mede-se também na justiça, na transparência, no combate à corrupção, na dignidade material, na habitação, nos salários, na saúde mental e na capacidade de os jovens construírem futuro em Portugal.
Esta reflexão não deve ficar fechada na Assembleia da República. Deve descer ao país real. Aos territórios. Aos municípios. Às cidades e às aldeias. Porque Abril também se cumpre, ou se adia, no poder local.
E é aqui que a Covilhã tem de se interrogar seriamente.
Que liberdade concreta tem um jovem qualificado se não encontra habitação acessível no concelho onde estudou, trabalha ou gostaria de viver? Que futuro tem uma cidade universitária se continua a formar talento que depois não consegue fixar? Que justiça social existe quando persistem desigualdades entre a cidade e as freguesias, entre quem tem acesso a serviços e quem vive mais afastado das oportunidades?
A Covilhã tem Universidade, conhecimento, história industrial, capacidade técnica, património, paisagem, cultura e identidade. Mas falta-lhe, há demasiado tempo, uma estratégia municipal clara que transforme esses ativos em futuro.
O problema não é a ausência de potencial. O problema é a ausência de rumo.
Nos últimos anos, a Covilhã habituou-se demasiado à gestão do imediato. A resolver o urgente sem desenhar o essencial. A reagir aos problemas sem antecipar soluções. A confundir presença com liderança, apoio com visão, agenda com estratégia.
É importante apoiar associações, coletividades, instituições e juntas de freguesia. Esse apoio é necessário e deve ser valorizado. Mas não basta apoiar quem faz. É preciso saber o que quer fazer o próprio Município.
E é aí que começa a insuficiência política do atual momento municipal.
Qual é a estratégia para a habitação acessível? Qual é o plano para fixar jovens? Qual é a política concreta para atrair investimento produtivo e qualificado? Qual é a resposta à falta de emprego com salários dignos? Qual é a articulação entre Universidade, empresas, incubadoras, reabilitação urbana, mobilidade e centro histórico?
Sem estas respostas, a política municipal fica reduzida à administração da continuidade.
A habitação é talvez o exemplo mais evidente. Fala-se muito de juventude, inovação e fixação de talento. Mas, sem habitação acessível, tudo isso fica incompleto. Um jovem pode estudar na Covilhã, gostar da cidade e querer cá ficar. Mas se não consegue arrendar ou comprar casa em condições compatíveis com o seu rendimento, a promessa de futuro transforma-se rapidamente numa despedida.
E uma cidade que deixa partir os seus jovens perde mais do que população. Perde energia, criatividade, capacidade crítica, iniciativa económica e esperança.
Também no emprego qualificado a Covilhã precisa de mais ambição. Não basta acolher encontros, fóruns ou cimeiras. A Covilhã não pode limitar-se a enunciar a inovação. Tem de criar condições para que ela fique, cresça e produza valor no concelho.
A liberdade também se mede por aí: pela possibilidade real de escolher ficar.
Nos territórios do interior, a liberdade perde-se muitas vezes de forma silenciosa: quando os jovens partem por falta de oportunidades, quando uma aldeia perde serviços, quando a habitação se torna inacessível, quando o salário não permite construir vida, quando a desigualdade territorial passa a ser tratada como destino.
Abril não pode aceitar essa resignação.
A Covilhã precisa de uma visão de curto, médio e longo prazo. Precisa de saber o que quer ser daqui a quatro anos e daqui a dez. Precisa de uma governação que não se limite a gerir o que existe, mas que tenha coragem para abrir caminho ao que falta fazer.
Porque governar não é fazer agenda. Não é distribuir presenças. Não é revestir de comunicação a ausência de resposta. Governar é escolher. É reformar. É definir prioridades. É prestar contas. É servir a causa pública com lucidez, critério e responsabilidade.
Não basta celebrar Abril. É preciso merecê-lo.
Na Covilhã, merecer Abril significa criar condições para que os jovens tenham futuro. Significa garantir habitação acessível. Significa promover emprego qualificado e salários dignos. Significa combater desigualdades sociais e territoriais. Significa exigir transparência, rigor e estratégia. Significa transformar potencial em desenvolvimento real.
A democracia não se mede apenas pelo voto. Mede-se pela capacidade de melhorar a vida das pessoas.
E, nesse ponto, a Covilhã continua à espera de uma visão que esteja à altura da sua história, da sua juventude, da sua Universidade, das suas freguesias e do seu futuro.
Porque os cravos podem ficar na lapela. Mas, se a política não criar futuro, murcham na vida real das pessoas.
Viva o 25 de Abril!
Viva a democracia!
E viva a obrigação de estarmos à altura do que Abril ainda hoje exige de nós.
Covilhã, 25 de Abril 2026