Opinião: Como vai a saúde das empresas em março 2026
Estratégias, Riscos, Desafios e Oportunidades, em particular para os Distritos do Interior-Centro
Por Jornal Fórum
Publicado em 23/04/2026 09:00
Opinião

Acaba de ser publicado um relatório sobre a saúde das empresas nacionais e regionais e/ou distritais, incluindo a nível sectorial, relativo ao mês de março de 2026. Compara os dados com o período homólogo do ano passado. É particularmente importante para o interior, para apreciar a evolução do emprego e de várias outras variáveis. Isto é, para ver as suas dinâmicas, as estratégias sectórias, os riscos, as oportunidades, e também as ameaças, particularmente numa altura de muitos imponderáveis vindas da Guerras Rússia vs Ucrânia, EUA-Israel vs Irão e da política das tarifas do tio Sam (EUA).

 

O retrato mais recente do tecido empresarial português, referente a março de 2026, mas publicado já em abril, mostra um país em transição, mas não em retração. De facto, em março de 2026 nasceram menos empresas do que no ano anterior — uma queda de 7,2%, como se lê no Barómetro Informa DB (Nascimentos: 4588 em 2026 contra 4944 em 2025, -7,2%” — mas continuam a nascer muito mais empresas do que aquelas que encerram. Aliás, os encerramentos caíram quase para metade, passando de 1144 para 596, uma redução de 47,9%. Esta combinação — menos entradas, mas ainda menos saídas — sugere um tecido empresarial que está a ajustar-se depois de anos de choques sucessivos, mais do que a encolher. O único indicador que sobe de forma significativa é o das insolvências, que aumentam 35% em março (de 140 para 189). No entanto, quando se olha para os últimos doze meses, o número total de insolvências praticamente não se altera, o que indica que este aumento recente pode refletir tensões financeiras localizadas, e não um agravamento estrutural generalizado.

Territorialmente, o país continua altamente assimétrico. Lisboa e Porto concentram quase metade de todas as entidades e continuam a dominar tanto os nascimentos como os encerramentos. Lisboa representa 31,4% das novas empresas e 31,5% das que encerram, enquanto o Porto absorve 18,3% e 15,8%, respetivamente. Esta concentração confirma a tradicional vitalidade económica das áreas metropolitanas quando comparado com o resto do país. Mas também amplifica também os riscos para as emresas/entidades: qualquer choque setorial ou financeiro tem impacto imediato numa parte muito significativa do tecido empresarial nacional.

Quando olhamos para o interior — e em particular para os distritos da Guarda, Castelo Branco e Viseu, as chamadas Beira Interior e Beira Serra —a leitura torna-se mais delicada, pois estes distritos têm pouca massa crítica e dependem de um número reduzido de empresas e setores. Estas características tornam estas regiões mais vulneráveis a oscilações conjunturais. Na Guarda, os nascimentos descem de 36 para 29, uma queda de 19,4%, mas os encerramentos caem ainda mais, de 16 para 4, ou seja, menos 75%. Isto significa que, por cada empresa que encerra, nascem mais de sete. O saldo é positivo, mas frágil: o volume absoluto é muito baixo e a queda dos nascimentos mostra que o dinamismo empreendedor está longe de ser robusto. A redução dos encerramentos pode refletir resiliência, mas também adiamento de decisões de saída. Por sua vez, Castelo Branco apresenta um quadro talvez mais preocupante pois os nascimentos praticamente estagnam — 56 agora, 57 no ano anterior — e os encerramentos caem de 24 para 16, uma redução de 33.3%. O problema é o rácio entre nascimentos e encerramentos que se fixa apenas em 3,5. Trata-se de um dos mais baixos do país. Revela uma renovação empresarial insuficiente para um distrito que representa apenas 1,5% do tecido empresarial nacional. Aqui, o risco é de erosão lenta: poucas empresas novas, poucas empresas a fechar, pouca dinâmica. É um território que precisa claramente de estímulos à criação de negócios e à diversificação económica. Viseu tem um comportamento intermédio. Os nascimentos caem de 116 para 87 (‑25%), mas os encerramentos caem ainda mais, de 23 para 10 (‑56,5%). O rácio é de 8,7 nascimentos por cada encerramento, um indicador bastante favorável. No entanto, há um sinal de alerta: os processos de insolvência sobem de 2 para 6, um aumento de 200%. Embora o número absoluto seja pequeno, mostra que algumas empresas locais estão a sentir pressão financeira. Em distritos com pouca densidade empresarial, a insolvência de meia dúzia de empresas pode ter impacto relevante no emprego e nas cadeias de fornecimento.

Sectorialmente, a economia portuguesa continua a deslocar-se para os serviços e para atividades ligadas à construção e ao imobiliário. Os setores com mais nascimentos são os serviços empresariais, a construção, os serviços gerais e as atividades imobiliárias. As tecnologias de informação e comunicação também crescem, com um aumento de 12% nos nascimentos. Mas os setores onde mais empresas nascem são também, em alguns casos, aqueles onde mais empresas entram em insolvência — como a construção e o comércio grossista. O barómetro setorial mostra, por exemplo, no caso das “Indústrias: regista 43 processos de insolvência, aumento de 22,8%” e “Construção regista 26, ou seja, aumento de 13,8%”. Isto revela um ambiente competitivo intenso e, por vezes, uma entrada excessiva de empresas pouco capitalizadas.

Ainda no âmbito das insolvências o sector das indústrias merece atenção especial pois representando apenas 6% das entidades, ele concentra quase um quarto das insolvências. Isto sugere vulnerabilidade estrutural e sectorial: empresas industriais mais expostas a custos energéticos, volatilidade de matérias-primas e concorrência internacional. Para distritos como Guarda, Castelo Branco e Viseu — onde a indústria tradicional ainda tem peso — isto é particularmente relevante.

A análise por forma jurídica mostra outra tendência estrutural: a retração muito acentuada das sociedades anónimas (SA), pois os nascimentos desta forma jurídica de sociedades caem mais de 60% em março, pois houve “Nascimentos (SA): 19 contra 53, ou seja, uma redução de 64,2%”. Isto pode indicar menor disponibilidade para projetos de grande escala ou maior dificuldade de financiamento. Em contraste, as sociedades por quotas e as unipessoais mantêm níveis de criação relativamente estáveis, reforçando a tendência para um tecido empresarial mais fragmentado, composto por empresas pequenas e flexíveis, mas também mais vulneráveis a choques financeiros.

No conjunto, os dados deixam vários sinais de alerta. A subida das insolvências em março mostra que há pressões financeiras reais, sobretudo em setores intensivos em capital ou dependentes do consumo. A forte entrada líquida em construção e imobiliário pode gerar riscos de sobre-capacidade se o ciclo económico abrandar. E a fragilidade de alguns territórios do interior — especialmente Castelo Branco — exige políticas diferenciadas, sob pena de aprofundar desigualdades regionais.

Do ponto de vista da política económica, estes resultados sugerem a necessidade de uma estratégia territorial mais ativa, com incentivos específicos para investimento produtivo no interior, apoio à capitalização de PME e políticas de re-industrialização orientadas para a transição verde e digital. Setores como indústria, retalho e grossista precisam de apoio à modernização e à digitalização, enquanto construção e imobiliário exigem monitorização macroprudencial para evitar desequilíbrios.

Para terminar e para as empresas, os dados reforçam a importância de estratégias de diferenciação, capitalização e gestão de risco. Em setores com forte entrada de novas empresas — como construção, imobiliário, TIC e serviços empresariais — a competição será intensa e apenas modelos de negócio robustos sobreviverão. Em setores mais pressionados — como indústria e comércio — a aposta deve ser na subida na cadeia de valor, automação e internacionalização. E, para projetos com ambição, a evolução da forma jurídica deve ser planeada desde cedo, evitando que estruturas demasiado pequenas limitem o acesso a capital e a escala.

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