Opinião: José Avelino Gonçalves | Estórias de um Arquivo Judicial
O guarda livros da Fábrica Velha
Por Jornal Fórum
Publicado em 05/03/2026 09:00
Opinião

A manhã seguia muito acalorada.

O mês de Abril traz um calor de fornalha, quase africano, às encostas da vila. O António Gomes Cardona Barata apressa o passo, acompanha os manos Costa, ambos chamisseiros, que nesse dia iam tentar a sorte na serra do Monte Serrano. Cochichavam muito, olhavam desconfiados para as ruelas e portas da urbe. Não conseguiam disfarçar o nervosismo.

A Fabrica Velha, na sua importância, mostra-se na ribeira da Carpinteira. Francisco Joaquim da Silva Campos Melo, sócio-gerente da firma comercial Campos Melo & Irmão, após a morte do pai do António Barata, um falecido e muito horado empregado, dera toda a sua protecção ao filho e á família - para que pudesse ser gente. O moço de ar enfartado, na qualidade de mestre dos tintureiros e muito querido dos patrões, estava encarregado de processar a folha semanal dos tintureiros e chamisseiros da fábrica.

Ao chegar à fábrica, o Jerónimo Catrina, que arrumava umas papeletas na estante, com ar muito sonso, disse-lhe:

- O sr. Campos Melo quer falar contigo com urgência.

Então o Baratinha, que limpava a testa com o lenço branco muito conspurcado, teve um sorriso amarelado, muito comprometido.  Ainda ficou esperando algum outro detalhe, uma apreciação. Mas o Catrina, com o lápis pendurado na orelha, retomara o trabalho, analisava os papeis. E, naquele abafamento dos tetos baixos, no cheiro vago a desfalque, escapa-se para a vila.

O Barata, muito atarantado, vê-se já na rua da Praça. Dentro da loja do relojoeiro António Lagoa, viu o Gregório Nunes Geraldes esperando ao balcão. A transpirar culpa, esconde-se na casa de Fotografia do Teixeira. Já se via, acorrentado e levado para o Limoeiro.

Os patrões prometem não fazer queixa, mas, o mestre contabilista que metera nas folhas mais despesas do que aquelas que se fariam com os vendedores de lenha, teria de abalar para o Algarve. A viagem era por conta do patrão!  O mestre tintureiro não aceita. Apresenta-se à Justiça, confessa a marosca! O juiz Nunes Ribeiro, em vista de tal declaração solene e por forma que este parecia não se achar louco, ordenou a sua prisão. O Barata, que não aceitara a proposta dos patrões, é condenado na pena de oito anos de degredo para as ilhas de Cabo Verde.

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