Opinião: António Rebordão | Os Meninos de Ontem
Idosos sozinhos: o abandono que a sociedade prefere não ver
Por Jornal Fórum
Publicado em 15/10/2026 09:00
Opinião

Há uma realidade que incomoda, mas que já não podemos esconder: há idosos em Portugal que vivem completamente sós, esquecidos pela família, ignorados pela sociedade e, por vezes, desconhecidos pelos próprios serviços sociais.

Vivem em casas onde outrora existia uma família numerosa. Vivem em aldeias onde antigamente todos conheciam todos. Vivem em quintas isoladas, em bairros das cidades ou em apartamentos onde ninguém bate à porta.

Alguns passam dias sem receber uma visita.

Outros passam semanas sem uma conversa que não seja com o empregado do café, com o funcionário que entrega uma refeição ou com alguém que lhes telefona por obrigação profissional.

E existem aqueles que podem cair, adoecer ou entrar numa situação de emergência sem que ninguém dê por isso.

É esta a sociedade que queremos?

A solidão não é apenas uma questão sentimental. O isolamento prolongado pode contribuir para a deterioração do bem-estar físico e psicológico, para a perda de autonomia e para o agravamento da vulnerabilidade.

Mas existe uma solidão ainda mais perigosa: aquela que acontece quando o idoso percebe que deixou de ser necessário.

Depois de uma vida inteira de trabalho, sacrifícios e responsabilidades, chega a reforma. Os filhos seguiram as suas vidas. Os amigos foram desaparecendo. O companheiro ou companheira pode ter morrido. As pernas já não obedecem como antes. O dinheiro é pouco. A televisão passa a ser a principal companhia.

E a porta de casa permanece fechada.

É assim que começa, muitas vezes, um abandono silencioso.

Não há gritos. Não há violência visível. Não há manchetes.

Há apenas silêncio.

Mas onde está a família?

É fácil apontar o dedo ao Estado. E, em muitos casos, há razões para o fazer.

Mas também precisamos de olhar para dentro das nossas próprias famílias.

Quantos filhos têm tempo para perguntar aos pais idosos como passaram o dia?

Quantos netos sabem verdadeiramente como vivem os avós?

Quantas vezes telefonamos porque sentimos saudades e não apenas porque precisamos de alguma coisa?

Não podemos transformar os nossos idosos numa obrigação administrativa: “já liguei para saber se tomou os medicamentos”, “já lhe levei as compras”, “já lhe paguei as contas”.

Cuidar não é apenas tratar das necessidades materiais.

Cuidar é estar presente.

Às vezes, o que o idoso mais precisa não é de dinheiro nem de comida. É de alguém que se sente ao seu lado e diga:

“Estou aqui. Não está sozinho.”

E os vizinhos?

Durante décadas, as aldeias portuguesas tiveram uma extraordinária rede de solidariedade.

Sabia-se quem estava doente. Sabia-se quem precisava de ajuda. Sabia-se quem tinha ficado viúvo. Sabia-se quem vivia sozinho.

Hoje, essa proximidade desapareceu em muitos lugares.

Mas pode ser recuperada.

Um vizinho pode ser a primeira linha de proteção de um idoso isolado.

Uma visita rápida. Um telefonema. Uma pergunta.

“Está tudo bem?”

São gestos simples, quase gratuitos, mas que podem evitar uma tragédia.

Não precisamos de ser assistentes sociais para sermos bons vizinhos. Precisamos apenas de não ser indiferentes.

E o Estado?

Aqui, a responsabilidade é ainda maior.

O Estado não pode limitar-se a esperar que o idoso peça ajuda. Muitas vezes, ele não consegue pedir. Outras vezes, não quer pedir. E há ainda aqueles que nem sequer sabem a quem recorrer.

Municípios, Segurança Social, centros de saúde, juntas de freguesia, IPSS, forças de segurança e associações locais devem trabalhar em conjunto.

Não basta saber quantos idosos existem numa freguesia.

É igualmente necessário reforçar o apoio domiciliário, os centros de dia e de convívio, os transportes para consultas e serviços essenciais e as respostas de emergência.

Sobretudo no interior do país, onde as distâncias são grandes e as populações estão envelhecidas, esta necessidade é ainda mais evidente.

Não podemos esperar pela tragédia

Há uma pergunta que deveria envergonhar-nos enquanto sociedade:

Porque é que, tantas vezes, só descobrimos que um idoso estava completamente abandonado quando acontece uma tragédia?

Quando é encontrado caído em casa.

Quando chega ao hospital sem acompanhante.

Quando alguém percebe que há vários dias que não abre a porta.

Quando os bombeiros ou as autoridades são chamados porque ninguém consegue contactar aquela pessoa.

Nessa altura, todos lamentam.

Mas lamentar depois não chega.

A verdadeira solidariedade é prevenir antes.

Os idosos não são descartáveis

Existe ainda uma ideia perigosa de que, depois de uma certa idade, a pessoa deixa de ter utilidade.

É uma injustiça profunda.

Os idosos trabalharam, educaram filhos, sustentaram famílias, construíram comunidades e contribuíram para o país.

Não podem ser tratados como pessoas que já cumpriram a sua função.

Uma sociedade mede-se também pela forma como trata aqueles que já não têm força para exigir os seus direitos. E os idosos têm direitos.

Têm direito à saúde, à segurança, à habitação, à proteção social, à participação na comunidade e, sobretudo, à dignidade.

Não podemos aceitar como normal que um homem ou uma mulher passe os últimos anos da sua vida numa casa silenciosa, sem família, sem amigos, sem vizinhos e sem ninguém que pergunte se está bem.

Não podemos aceitar que a solidão seja considerada uma consequência inevitável da velhice.

Por isso, a responsabilidade é de todos.

Da família, que não pode esquecer os seus.

Dos vizinhos, que não devem fechar os olhos.

Das instituições, que devem estar mais próximas.

Das autarquias, que devem conhecer a realidade das suas populações.

E do Estado, que tem a obrigação de garantir que nenhum cidadão idoso fica abandonado simplesmente porque nasceu, viveu e envelheceu numa zona onde já quase ninguém está.

Há uma coisa que todos devemos compreender:

o idoso isolado não é invisível.

É uma pessoa. Tem uma história. Tem sentimentos. Tem direitos.

E merece ser tratado com dignidade.

Porque hoje podemos ser nós a bater à porta de um idoso.

Amanhã poderá ser a nossa porta aquela em que alguém terá de bater.

“Os idosos não são um problema para a sociedade. São parte da sociedade. E cuidar deles é uma responsabilidade de todos nós.”

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