Com o aproximar do Mundial de 2026, temos observado, entre amigos e nas redes sociais, uma corrida às cadernetas — recorrentemente esgotadas — e aos cromos da competição, editados pela famosa Panini. É verdade que o aproximar destes momentos de 2 em 2 anos, nos ciclos Europeu-Mundial, costumam trazer malta nova a um hobby antigo e que também já se tornou negócio. Contudo, neste ano o aumento dos colecionadores foi exponencial. Seguramente alguns vêm pelos filhos, irmãos ou sobrinhos mais novos, como intermediários em trocas e compras, mas existe ainda assim uma sobrecarga desta febre.
Eu sou colecionador deste criança. Completei a minha primeira coleção, do Euro 2004, com o meu avô Elias, que fazia as listas e entregava nos quiosques da Covilhã, onde outros colecionadores também as deixavam, criando um mercado de trocas, o que diminuía a frustração dos repetidos. Lá fui continuando e hoje faço quase todas as coleções que são possíveis completar — há outras que pela quantidade de paralelas e cartas numeradas é impossível. Conheci neste percurso do colecionismo, onde há trocas e vendas, além de presencialmente, pelo correio, as pessoas mais honestas com quem convivi. Pessoas de palavra, pessoas de entre ajuda e, principalmente, pessoas com estórias para contar e com vidas que, a bem ou a mal, moldaram a sua paixão pelo colecionismo. Com o passar do tempo comecei a utilizar um site fantástico criado por colecionadores brasileiros chamado Last Sticker. Basta o colecionador colocar as suas listas de faltas e repetidos e o sistema do site cria a melhor ligação para possíveis trocas. Dialogando com os utilizadores com maior potencial de troca, lá se vão completando as coleções. Já troquei com as mais variadíssimas nacionalidades, deste o México até à Roménia. É uma comunidade de escala mundial e, ainda assim, um dos utilizadores com mais número de feedbacks positivos no site, sem nenhum feedback negativo, mora na minha rua. Falo do Pedro Mingote Pinto. Uma pessoa excecional, com um coração do tamanho do mundo e com uma coleção particular quase do mesmo tamanho. O verdadeiro “papa-tudo” de coleções, tendo uma coleção privada de cartas e cromos de Cristiano Ronaldo de mais de mil itens.
Esta semana, no dia 30 (sábado), a Casa do Benfica da Covilhã irá organizar um evento de troca de cromos. Falo, por isso, do Pedro Gaspar. Mais um grande colecionador da Covilhã. Com uma grande paixão pelo Benfica e, por influência da sua filha, do António Silva. Um benfiquista ferrenho, com sorte nas coleções e nos sorteios, que criou e gere um dos (se não mesmo o maior) grupo de trocas de colecionismo em Portugal — o Troca Cromos Aqui. Falamos de 28 mil pessoas que diariamente trocam e vendem cromos nesta plataforma. As redes sociais, sem dúvida, ajudaram a unir pessoas com os mesmo hobbys. Foi através das mesmas que conheci outros atores desta peça, como o Ivan Ferreira, um torreense apaixonado pelo Gyökeres, que, pela sua teimosia e paixão, fundou um grupo de leilões e vendas chamado Fénix Cards, do qual tenho o gosto de ser (um ausente) moderador. Estes grupos, que são exemplos do mar de trocas que existe em Portugal, demonstram os valores do colecionismo: o cumprimento da palavra, o respeito entre membros e a ajuda mútua no fim de coleções.
Muito mais haveria para dizer sobre o hobby, que, como referi, já se tornou um negócio. Para a avalanche de pessoas novas, parece ser essa a parte que mais custa a aceitar. Não há uma resposta cabal e certa sobre isso. O que sei é que há colecionadores que investem quantias volumosas e que também procurarão o seu retorno; mas ainda existem pessoas que apenas recorrem às trocas para terminar as coleções. O Pedro Mingote Pinto, comentando, certa vez, o facto de algumas pessoas comprarem as coleções completas com os cromos por colar, rematou certeiramente ao dizer que se perdia a graça do colecionismo. E saberá bem sobre isso, pois já esteve mais de vinte anos à procura dos cromos em falta de uma coleção obscura de futebol nacional que tinha.
Esta crónica não é das mais habituais, nem incide diretamente sobre o que tenho escrito, mas demonstra que continua a haver um mundo de pessoas boas, amigas e familiares, que investem o seu tempo atrás de algo que, no peso da vida, não tem valor, mas nos momentos vale uma sacola de ouro. Dedico este texto ao meu avô Elias, que despertou este bicho do colecionismo em mim, e ao Pedro Mingote Pinto, que, por muitas adversidades que a vida lhe tem trazido, mantém um sorriso amigo e um troca vantajosa para quem o procurar.