Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris. "Lembra-te homem, que és pó, e em pó te hás-de converter."Eis a verdade da Quaresma com que se iniciam as cerimónias da quarta-feira de cinzas e que o consumismo do quotidiano teima em ocultar. Não obstante, por essa Beira fora há quem insista em manter vivas as tradições ancestrais da recordação pungente da Paixão do Redentor.
Encomendam-se as almas, regram-se os Passos, cantam-se os Martírios, revive-se a Semana Santa, os Ramos, o Tempo de Endoenças. São resquícios da fé que perdura, testemunhos de um passado de catequização que moldou a sociedade em que vivemos e que formatou o carácter que os nossos avós nos legaram.
Todas estas tradições têm uma origem mais ou menos definida no tempo, conhecê-las é, antes de mais, um exercício de autoconhecimento sociocultural. A sua génese e difusão corresponde ao período pós-tridentino. O concílio de Trento procurou dar resposta à crise em que o catolocismo mergulhou, sobretudo, devido ao aparecimento do luteranismo.
Assim, surge, nessa altura, uma nova espiritualidade, a Devottio Moderna abrangendo o processo da radical humanização da vida de Cristo, da sua dimensão sofredora e o carácter expiatório do drama do calvário.
A Igreja encontra nos rituais uma forma de se defender das acusações que lhe eram então dirigidas. Protestantes e judeus negavam o Purgatório, a Igreja respondia promovendo o culto das almas. Criaram-se centenas de confrarias dessa invocação, construíram-se pequenos monumentos a que se deu o nome de alminhas e nasceu o encomendar das almas, um cântico doloso que entrega à protecção divina todas as almas. São muitas as povoações da nossa região onde, ainda hoje, grupos de pessoas, nas encruzilhadas ou nos lugares elevados perpetuam esta última tradição.
Nalguns locais cantam-se os martírios, bonito cântico que provoca no ouvinte um misto de fé e dó, ou mais raramente regram-se os Passos. O regrar dos Passos, bem vivo na freguesia do Teixoso onde se canta durante a semana que antecede a procissão do Senhor dos Passos, terá tido a sua origem nas capuchas, jaculatórias cantadas a duas ou três vozes sobre arremendos de cantochão.
Mas sem dúvida que entre as cerimónias que mais fiéis atraem nesta época sobressaem as procissões em honra do Senhor dos Passos.
Na região criou-se um calendário distribuindo pelos vários domingos da Quaresma este tipo de cerimónia. Assim no 1º Domingo da Quaresma realiza-se a procissão no Fundão, no segundo no Teixoso, no terceiro no Tortosendo, no quarto na Covilhã e por fim na Vila do Carvalho.
Estas procissões recriam a Via-Sacra, culto iniciado pelos franciscanos, em Jerusalém. Se a cerimónia da Via-Sacra conta hoje 14 estações nem sempre assim foi, inicialmente e até 1563, antes da publicação da Peregrinação Espiritual, em Lovaina, eram apenas 7.
A procissão de Nosso Senhor dos Passos, ainda hoje, contempla apenas as sete estações, geralmente assinaladas por construções, em pedra, onde são colocadas telas ou outro tipo de pintura alusiva às respetivas estações; Cristo recebe a cruz; Cristo cai pela primeira vez; Cristo encontra a sua mãe; Cireneu ajuda Cristo; Cristo encontra as mulheres chorando; Verónica limpa o rosto de Cristo; Crucifixação e morte de Cristo.
A primeira procissão dos Passos, em Portugal, realizou-se em 1587, na Graça, em Lisboa. Esta procissão é então feita à imitação da de Sevilha, onde Frei Domingos de Azevedo se deslocou para a estudar, de lá trouxe os pormenores, incluindo a medida dos passos, tudo autenticado por notário.
Na maior parte das povoações da região esta cerimónia é repartida por três dias. Na sexta- feira a imagem do Senhor dos Passos é levada para o calvário, no sábado, à noite, percorre as ruas onde estão colocados os passos, acompanhada por velas e lanternas procissionais ao mesmo tempo que o silêncio da noite é rasgado pela melopeia do “ Senhor Deus, misericórdia”.
No domingo, à tarde, tem lugar a procissão mais solene, é antecedida de sermão e percorre, uma vez mais, os diferentes passos (estações). Em determinadas povoações é também recriado o “encontro”. A procissão, onde seguem as imagens de Nossa Senhora e de S. João, vem ao encontro da procissão com imagem do Senhor dos Passos, sendo então proferido novo sermão. A procissão segue depois com as três imagens e termina com o sermão da morte e crucifixação onde, não raro, se recriava o quadro da morte no calvário. Aí, à voz de: “rasgam-se os panos”, surge um enorme crucifixo, encostadas à cruz, duas escadas nas quais duas crianças vestidas de anjos, com um véu negro que lhes cobre a cabeça, acompanham a morte do redentor.
Um outro ritual, a procissão dos penitentes, no Paul, mostra como o sacrifício e a penitência são o caminho para a salvação das almas, não só das que participam no ritual, mas das que estão no Purgatório. A sua génese no século XVI reinterpreta o costume dos penitentes do proto cristianismo em que alguns, pelos seus crimes, eram sujeitos a sacrifícios e punições. Hoje, nesta localidade, vários homens, vestidos de igual e carregando objetos alusivos à Paixão de Cristo, cantam e pedem pelas almas.
Neste e noutros rituais é visível a herança franciscana que teve uma forte presença na região. Este aspeto está, por exemplo, bem patente na Ordem Terceira do Teixoso, também conhecida por irmandade de S. Francisco que, em 2019, recriou a sua procissão da Penitência. Esta procissão vulgarmente designada por procissão dos Terceiros caracteriza-se pelo elevado número de andores e de figurantes retratando temas bíblicos, alegóricos e da história do franciscanismo.
No concelho, podemos ainda referir outras tradições desta época como as que têm lugar na freguesia do Tortosendo.
As treze palavras ditas e retomadas, é uma cerimónia que se realiza todas as sextas-feiras da Quaresma. São cantadas à meia noite por dois homens, postos um na torre da Igreja Matriz e o outro no púlpito da capela do Calvário. Representavam a luta entre o Anjo da Guarda (Custódio) e o Demónio, que faziam a disputa de uma Alma.
Diabo -Custódio, amigo meu:
Anjo Custódio -Custódio, sim, amigo teu, não.
-Dize-me as treze palavras ditas e retomadas.
Diabo -Treze raios leva o sol; treze raios leva a lua.
Anjo Custódio - Arrebenta Diabo que esta alma não é tua.
As Ladaínhas da Paixão são uma cerimónia realizada no quarto domingo da Quaresma, cantada apenas por homens carregando a cruz e alumiados por archotes, muito idêntica ao regrar dos passos do Teixoso. Estes homens param nos sete passos que remetem para o percurso do redentor.
Com o Domingo de Ramos, inicia-se a Semana Santa, momento alto da Quaresma. Durante estes últimos 7 dias, ninguém ficava isento de participar no Ofício de Trevas, na Quarta-Feira Santa, na procissão das Endoenças, na quinta-feira e na Adoração da Cruz e procissão do Enterro do Senhor, na sexta-feira.
Vinha depois a festa com o Sábado de Aleluia. A vigília Pascal iniciava-se tarde e ainda com o pesar da Quaresma. Na igreja, retábulos e janelas mantinham-se tapados com panos negros. Tinha então lugar a bênção do lume novo e da água. Os fiéis ansiavam pelo Glória in excelsis Deo e quando finalmente era proferido, tudo se transformava. Como que num relâmpago vertiginoso, os panos das janelas e dos retábulos eram retirados, havia uma explosão de som provocada por campainhas, cornetas e assobios. As bandas filarmónicas tocavam ao mesmo tempo que os sinos repicavam festivamente. Na Capela-mor, então totalmente descoberta, era visível a cruz que na sexta-feira presidira à cerimónia da Adoração, mas agora em lugar da centenária imagem de Cristo, ostentava apenas um pano branco, símbolo da ressurreição.
Saídos da igreja de madrugada, organizavam-se os grupos que haviam de cantar as alvíssaras de casa em casa, de rua em rua, até que a notícia chegasse a toda a parte. O canto, cuja letra poucos recordam, era alegre e invocava os santos venerados nas várias capelas da freguesia. Já o sol ia alto quando os grupos se desfaziam para que ao meio-dia pudessem participar na missa. Seguia-se à eucaristia dominical, a procissão da Ressurreição promovida pela Confraria do Santíssimo Sacramento.
Após o almoço, todas as famílias ansiavam pela visita do senhor padre e do beijar da cruz. Revestido de sobrepeliz, o sacerdote fazia-se acompanhar de acólitos com campainhas, transportando um deles a caldeirinha. Seguiam ainda no grupo, o homem da cruz que envergava uma opa vermelha e outro com o cesto para as galinhas oferecidas ao senhor prior. Atrás vinha um grupo de rapazes esperando que lhes atirassem alguns tostões.
Em cada casa esperava-os, em cima de uma mesa com a melhor toalha de renda, um pratinho com algumas moedas, bolos da festa, as amêndoas e copos de vinho fino. O Sr. Padre pegava no hissope e aspergia as cabeças sorridentes, a casa, o folar… - Boas Festas Aleluia, Aleluia! A casa estava benzida, as almas lavadas na Desobriga, a Cruz beijada, os garotos rebolavam no chão atrás do meio tostão atirado, felizes por andar à arrabainha. Ao final da tarde preparava-se o farnel para o dia seguinte. Segunda-feira de Páscoa sempre foi dia de festa nestas abençoadas terras da Beira. Uns rumavam a Penamacor à festa de Nossa Senhora do Incenso, outros a Caria para festejar o Santo Antão mas a maioria dirigia-se para Orjais a fim de venerar Nossa Senhora das Cabeças. Subia-se a serra por entre estevas, soutos e olivais entremeados por verdes courelas de centeio. Carregavam-se os ex-votos de cera, a perna, a mão, a cabeça…afinal eram muitas as graças. Depois era o mar-a-monte de gente. Eram as doceiras com as amêndoas, e os rebuçados de açúcar caramelizado. Eram os vendedores de rosários de pinhões, “cada três cinco tostões” e as Santinhas de açúcar que os gaiatos felizes levavam ao pescoço. Era a mística da procissão que tocava a estranha multidão.
No final restava a esperança num tempo melhor, mais justo, mais fraterno.
Não esqueçamos que ontem como hoje a Páscoa é e será sempre Esperança.
Carlos Madaleno, Historiador.