Durante as passadas semanas temos assistido a diversas manifestações de teor político e social, com mais ou menos pessoas, onde tem sido utilizado, numa banalização doentia, o nome de Deus para a tomada de posição. Numa palavra, parece que, do ponto de vista político-social, apenas um caminho ou uma postura está coberta pelo manto divino. Esta postura radical, demonstra uma falta de conhecimento da história da nossa própria religião, nomeadamente da sua origem e da crítica encetada pela Palavra.
No que concerne à falta de conhecimento da origem do Cristianismo, referimo-nos, fundamentalmente, a dois aspetos: a relevância, na evolução histórica da Igreja, das ponderações dos Pais da Igreja e o contexto histórico de surgimento do Cristianismo. Começando pelo segundo: os seguidores de Cristo eram, inicialmente, na sua maioria, judeus. Por isso continuavam, pelo menos até ao ano 70 d.C. a ser categorizados dentro do chamado “judaísmo de Segundo Templo”, por referência ao Templo de Jerusalém, destruído no citado ano nas Guerras Romano-Judaicas. Ao seu lado, enquanto seguintes do Caminha/da Via, existiam outros grupos religiosos: a saber, os zelotes — lutadores armados, de guerrilha, contra os Romano —, os saduceus — grupo das elites —, e os fariseus — conhecedores da Lei de Moisés e formalistas no seu cumprimento e aplicação. Outros grupos existam, como os essénios ou os samaritanos; ou seja, existia uma diversificação dentro dos seguidores do Deus de Abraão. Nos Evangelhos (e Atos dos Apóstolos) a maior crítica de Jesus é ao grupo dos fariseus — não necessariamente a todos (a grande exceção será Nicodemos), nem ao grupo per se, mas sim à hipocrisia, formalismo excessivo e, fundamentalmente, esquecimento dos sentido e espírito do Mandamento de Deus, subvertendo-os à aparência formal. A mensagem de Cristo é de materialidade, de subversão dos problemas e de soluções; é incompatível com preciosismos desnecessários, muito menos com manutenção de situações formais sem correspondência material.
Quanto aos Pais da Igreja, releva a distinção entre opiniões comuns, conclusões e dogmas. Ainda que todos emanem da Revelação — que é imutável e apenas compreendida evolutivamente de maneira mais cabal — não podemos moldá-los e adulterá-los a nosso bel-prazer, quase que martelando argumentos teológicos em posições políticas desmedidas, sem observação real, casuísta, tão necessária à empatia e à proximidade cristã.
Toda esta discussão, nomeadamente, a tentativa de aproximar a política nacional (e internacional) à religião é, ab initio, uma discussão frustrada e falhada, pois parte de um pressuposto perigoso: a literalidade do nosso Mundo pode ser moldada pelos humanos. É uma negação da mensagem cristã — uma mensagem de imanência e transcendência, mas de livre arbítrio; de guerra constante, mas entre bem e mal, não entre esquerda e direita. A política, ultimamente tão obcecada com a economia, não pode esquecer a sua corrupção e subversão eterna a valores diferentes dos cristãos — a riqueza, o poder bélico, o desdém pelo adversário. Pior ainda é a tentativa de “enjaular” os católicos dentro da política — a política é que tem de ser enjaulada, num exercício de exame de consciência, ao Cristianismo; nunca o contrário.
Não há, verdadeiramente, na democracia dos partidos, quem represente os católicos. E não há, porque os que alegadamente representam, são neofariseus. Cheios de certezas sobre, nas palavras do saudoso Papa Francisco, “o Deus das surpresas”; cheios de razão, sem conhecerem os Mistérios; e cheios de ódio, ao invés de procurarem o consenso, de andar a outra milha e de mostrarem a outra face. Tudo isto demonstra, no nosso entender, um receio e uma desconfiança em Deus. Por não confiarem Nele, tentam colocar-se na sua posição.