Diretor: Vitor Aleixo
Ano: XI
Nº: 541

Peripécia Voltar

Lecionava no 2º Ciclo da Escola Pêro da Covilhã. Estávamos no ano de 1975, entre janeiro e junho, em que as turmas eram ainda, não sei se todas mas muitas, só de rapazes ou só de raparigas.

Tinha algumas aulas no chamado Anexo, junto ao Jardim, uma habitação que pertencia ao Liceu e onde havia salas muito interessantes com vários armários fechados, rentes ao chão.

E lembro que ainda podia usar muitos daqueles truques de escolher para chefes de turma os alunos de pior fama, para os “ter na mão”.

Estava grávida do meu 2º filho, portanto mais sensível e vulnerável e a turma era de rapazes do 1º ano, pequenitos, muito giros mas “levados da breca”.

A aula começava às 8 e 30m e a essa hora entrei numa dessas salas do interior.

Ainda só estavam 3 ou 4 alunos e eu perguntei o que se estava a passar ao que o chefe de turma diz: sotôra, ainda estamos só nós! Os outros ainda não chegaram.

Ora, como à primeira hora, havia sempre alguma tolerância, peguei no giz e iniciei o sumário, concentrando-me, com aquele cuidado para ajustar os termos e escolher devidamente as matérias que trazia no plano.

Eis que depois de alguns minutos, de repente, oiço algum borborinho e me volto para o espaço aberto da sala. Só vejo miúdos a sair de tudo quanto era armário, rentes ao chão, gatinhando na maior galhofa.

O que se decide nestes casos, de acordo com as épocas?

Não podia pensar muito: rir, era o que mais me apetecia; ralhar ou marcar faltas disciplinares? Ena, tantas!

Fiz um rosto sério, mas já não sei bem o que disse. Terei mandado sentar e fazer o sumário. A aula continuou comigo sempre bem séria “tipo cara de má” mas com tanta vontade de me rir a ver os miúdos, que ainda hoje vejo, a saírem do chão!

Ai, o que me ri no intervalo, com os colegas, a contar a peripécia.

Chão vivo ou isto só comigo!

- 01 out, 2022