Diretor: Vitor Aleixo
Ano: XI
Nº: 550

O respeito pelo adepto do tronco nu… Voltar

Para além do excelente desempenho das equipas portuguesas nas competições europeias a semana foi marcada pelo uso (ou não) de camisolas.

Esta peça de vestuário é, à semelhança do cachecol, um dos maiores elos que materializam a ligação do adepto ao clube. Por este motivo, a proibição de um jovem envergar a camisola do seu clube num jogo da I Liga levantou tanta polémica. Numa perspetiva apaixonada tratava-se de uma criança a expressar o seu sentimento. Para os responsáveis da segurança tratou-se do simples cumprimento de normas regulamentares que procuram por cobro a qualquer ponto de ignição de violência.

No meio deste debate de dimensão nacional, ao qual se juntou o presidente da Liga, um secretário de Estado e um autarca todos se esqueceram do essencial. O problema reside no peso social de algumas camisolas e na falta de cultura desportiva que assola, de uma forma geral, o nosso país. Situações como estas já foram levantadas em muitos recintos desportivos sem que lhes fosse conferida tamanha amplitude. No desporto onde vale tudo são muitos os clubes recorrem a este expediente legal para fazerem do seu estádio um campo de batalha que pareça um circo romano onde, por razões de segurança, está garantido um espaço exíguo para os adeptos da equipa visitada. Normalmente este mais parece um pequeno gueto, denominado de caixa de segurança, onde se enjaulam as claques adversárias. Para suportar esta prática registe-se o recurso a fortes estruturas comunicacionais que, ao invés de promoverem verdadeiramente o clube, o desporto e os seus valores, destilam ódio antes e depois dos jogos, com o beneplácito de alguns órgãos de comunicação social.

Esta foi a realidade britânica até aos inícios da década de 90. Quando foram ultrapassados todos os limites o governo de Margareth Tatcher teve de intervir. Desde então verificou-se uma verdadeira aposta no fair-play, no respeito pelos jogos, pela competição e seus intervenientes, nos quais se incluem clubes, árbitros, organizadores e adeptos. Esta mudança foi dura pois implicou, por exemplo, o fim das claques organizadas de clubes históricos como o Liverpool ou o Man Utd. Sem tecer mais comentários limito-me a apreciar os resultados que estão à vista de todos.

Nos últimos tempos clubes como o Casa Pia e o União de Leiria têm-se afirmado como exceções deste paradigma. Curiosamente as suas SAD´s contam com investidores estrangeiros que participam de forma ativa e presencial nas principais decisões. O seu marketing não tem apostado na apresentação de mensagens negativas ou na apresentação de camisolas berrantes. Tem-se centrado na satisfação do adepto, o seu verdadeiro público-alvo. Logo na estreia na 1ª divisão a SAD dos Gansos emitiu um comunicado para agradecer a "solidariedade demonstrada” e "forma digna e amável" como foram recebidos pelo Santa Clara, realçando que se trata de uma postura que só "enobrece e valoriza o futebol português". Por sua vez a SAD leiriense foi muito lesta a demarcar-se de uma publicação que fazia uma alusão a Leiria como a “capital do centro” e que continha mensagens insultuosa para com Coimbra e a Académica. Curiosamente o clube da cidade do Lis, que se encontra na Liga 3, tem-se afirmado como um caso de estudo. O número de espetadores nos jogos disputados em casa ronda os 15 mil e os adversários têm salientado a forma como são recebidos. É assim que vão atraindo simpatias, mesmo entre os adversários, e atraindo públicos. Mais público corresponde a mais apoio humano e financeiro e a uma proximidade cada vez maior do sucesso coletivo.

- 24 set, 2022