Diretor: Vitor Aleixo
Ano: XI
Nº: 541

Os suínos e a Ana Borratta – 1ª parte Voltar

Construía-se, muito lentamente, a Estrada Real n.º 55 que vai ligar Abrantes à Guarda. Uma lesma! O sr. Calheiros e os seus colegas no Ministério cospem uma brutal injúria, nas bochechas de quem os elegeu. Atrevem-se a aplicar a insignificantíssima verba de quatro contos de réis para uma Obra, em que se vai gastar mais de cem contos! As fábricas continuam a fechar. A última declaração do estado de quebra foi a do comerciante José Gonçalves Cortez.

O Zé Lopes, tintureiro nos Campos e Melo, recebe em depósito a prima Angélica, solteira “sui juris”. Uma raparigaça de fazer corar as paredes da Igreja da Nossa Senhora da Conceição, que antes já fora Convento dos Franciscanos, expulsos pelo “Mata Frades”! A Angélica tem tratado o seu casamento com Rafael Gonçalves, pisoeiro, nascido na bonita aldeia de Vilarinho, alapada no sopé das verdes e fragosas serranias da Lousã. A mãe da prometida é que não esteva para aí virada, fazia-lhe falta em casa, agora que era viúva. No dia ajustado para a celebração do sacramento, não a deixa sair, coagindo-a no seu direito. A Angélica merecia melhor casamento! Entregá-la ao “detrás da serra” era como jogar pérolas aos porcos! Ia de porco para bacorinho!

Mas a Justiça, fazendo ouvidos de mercador, não esteve pelos ajustes. O oficial de diligências, José António Petrucci, deposita-a na casa do Lopes. Em seu poder e de sua mulher, parentes da depositada e pessoas honestas, com a obrigação de zelarem pela sua honra e decência! É verdade que a rapariga conversara diversos mancebos, uns da lavoura, alguns dos engenhos e muitos da arte, mas ainda não tinha provado a novidade! Para fugir à má língua e para lhe mostrarem que de nada valiam genealogias, brios de mãe ou gordos testamentos, apressam o casamento!

O António Maria, um bexigoso de olhos azuis, trazia a Angélica debaixo de olho, fruto das palpitações de um coração que nasce. A mando da mãe da depositada, tenta impedir o casamento.

Ao anoitecer de um dia tempestuoso, estando a Igreja da Nossa Senhora da Conceição vazia de devotas e o reverendo Gregório José Pais recolhido na “Paz do Senhor”, lança a mão à cera, que servia para alumiar o Altar do Santíssimo Sacramento e o Nosso Senhor das Chagas. Deixa-os às escuras! O moinante, que já não era virgem nestas andanças, aproveita para arrombar um caixão, onde se arrecadavam as esmolas e outros utensílios da devoção da Senhora da Conceição. Foi o sacristão de Santa Maria que lhe pôs a mão e lhe devassou as algibeiras. O juiz adianta-lhe o valor do bilhete, só de ida, para Cabo Verde! Saiu-lhe a porca mal capada!

Na Taberna do João Monteiro, por alcunha “o Morcela”, com as suas portadas de madeira viradas para a Botica “Leitão & Filho”, ia um desusado movimento, de pedreiros e carpinteiros contratados para as obras. O “Morcela”, um tipo agradável e bom petisqueiro, com as mangas arregaçadas, por trás do balcão, não cessava de encher os decilitros com uma vasta picheira. Da salgadeira saíam chispes, focinheiras, caluga e orelheira! Um cheirinho gostoso abandonava a cozinha. As grossas trempes apoiavam a negra panela, alambazada em chispe de porco com feijão branco.

Ao cimo da escada esguia e íngreme, que subia da taberna para um reservado, alumiado por um grosso candeeiro a petróleo, a esbrugar uma unha de porco e a limpar as barbas, oleosas da gordura suína, alapava-se o António da Costa Terenas.

Com loja na Rua da Praça n.º 2, o opulento comerciante andava em conflito, na Justiça, com os produtores locais de carnes e derivados de porco. Pelo seu negócio, a Covilhã tem sido invadida pela tripa francesa, que vem fazer concorrência desleal às tripas nacionais!

O Costa Terenas prometera ensinar ao “Morcela”, como se fazem as tripas “à la mode de Caen”.

À porta da taberna aparece, afogueado, o farmacêutico António Baptista Alves Leitão. Homem de muito boa fortuna, que desposara, em segundas núpcias, Maria Cristina Honoré, batizada na Igreja de S. Luís Rei de França. Uma raparigaça de dezassete anos, agora quase trintona, mas ainda enxuta. Foi buscá-la ao Convento de Santa Marta, que pertencia à Ordem dos Frades Menores, da Terceira Ordem e estava sob jurisdição diocesana, até à morte da última religiosa.

Ela, no respetivo lucotório, da parte de dentro da grade; ele na parte de fora da grade, em pulgas para surripiar a noiva às freiras clarissas urbanistas. Acompanha-o o conselheiro António Jorge de Oliveira Lima, oficial maior da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e do Ultramar, morador na Rua de São Julião, vulgo dos Algibebes e o advogado Joaquim José Pereira de Mello. Recebem o Santo e Sagrado Matrimónio. O casório emagrece-lhe a bolsa. Desembolsa a formidável quantia de um conto e seiscentos mil réis!

Lá fora, junto às pedras que sobraram do pelourinho, o fiscal municipal inspecionava os velhos candeeiros, com aspeto de lucernas e fracos alumiadores. A câmara municipal, muito criticada pelo jornal da oposição, projetava iluminar as ruas da vila a petróleo, em vez de azeite. Os agricultores das “terras de ouro” têm aumentado o seu preço. Culpam o mau ano agrícola!

Mas, a crise não bate a todas as portas, pelo menos por igual! Era sensação o passamento, na povoação do Tortosendo, de João Ferreira Tavares de Proença, fidalgo velho e o mais abastado lavrador das Beiras. Morreu sem fazer testamento, ficando seu herdeiro o Exmo. Dr. Francisco Tavares de Proença, irmão do findo. Não se conseguem contabilizar a quanto montam os seus haveres. Oitocentos contos fortes, para riba, que não para baixo!

- 16 set, 2022