Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: XI
Nº: 527

Os avós deste século Voltar

É suposto que este período que acabámos de viver tenha sido, tipicamente, uma época festiva, tanto em Portugal como em toda a Europa. Estamos, obviamente, a falar da Páscoa.

Por força do surto pandémico da Covid-19 foram muitos os que não puderam deslocar-se para junto da família, particularmente os que, habitualmente, vinham de fora para o interior.

Este estado de emergência mergulhou-nos, a todos, num clima de muita preocupação e incerteza.

Foram muitos os que estiveram em confinamento e, por isso, impedidos de se juntarem nesta época festiva.

Apesar de tudo, esta foi uma boa oportunidade para ganhar animo e abstrair das constantes notícias da guerra por um lado e, dos números da pandemia, por outro, que a todos tem atormentado.

Os números têm sido assustadores, tanto os da pandemia como os da guerra.

E as maiores vítimas continuam, (sabemos bem porquê) a ser os idosos.

É por isso que considero ser oportuno fazer uma analogia entre os nossos seniores do passado e os que agora se podem considerar os avós do século XXI.

Na passagem á fase daquela que é considerada a da terceira idade, podemos considerar que começa aqui a contagem decrescente (ou não) para os classificados de idosos.

Nesta fase não existem grandes alterações orgânicas, porque algumas das modificações que se observam no modo de vida de cada um, são provocadas pela passagem à situação de reforma, à inatividade, à monotonia da vida, ao marasmo a que não estavam habituados.

Sim, porque o cidadão, nesta altura, ainda se considera capaz de satisfazer e cumprir com as suas necessidades e ser um sénior útil à sociedade, das mais diversas formas.

Se tivermos presente os avanços da medicina, podemos concluir que muitos avós têm hoje uma qualidade de vida bastante razoável. São pessoas perfeitamente válidas e ágeis, quer em termos físicos, quer, mesmo, intelectuais.

Sabemos ainda que são, também, muitos os que frequentam ginásios, os que se interessam pelas novas tecnologias e, sobretudo, os que estão muito atentos a tudo o que é novidade.

Além disso, temos de considerar o fator tempo, como grande aliado destes meninos da idade maior.

Nos tempos atuais, estamos a concluir que as bases da nossa cultura popular contemplam valores que são, facilmente, transmitidos pelos avós e não pelos pais, por falta de tempo destes, por facilitismo, por descuido e, porque sabem, hoje, da importância e do valor do trabalho e dedicação dos nossos séniores.

É, desta forma que, permanentemente se coloca no ar a questão: O que é ser idoso?

Segundo a Organização Mundial de Saúde, ser idoso é ter mais de 60 anos.

Mas temos de concluir que esta teoria está, há muito, ultrapassada, porque, com o aumento da qualidade de vida e com as possibilidades que a tecnologia nos trouxe, ser agora avô é conviver e participar na vida ativa dos netos e filhos, viajar, participar em caminhadas e em passeios, divertir-se com os amigos e, até mesmo, fazer já hoje grande sucesso na internet.

Aliás, ninguém contesta que, atualmente, as pessoas idosas desempenham, na nossa sociedade, um papel fundamental na transmissão de valores e na preservação das tradições, até porque são eles os heroicos guardiões de uma rica herança cultural.

Poder-se-á, mesmo, dizer que o papel dos idosos está e estará sempre em constante mudança, acompanhando a variação de culturas e princípios, ao longo das diferentes épocas vividas por cada um.

A verdade é que esta facha etária, apesar de mais débil, menos poderosa e menos forte, continua a ser, sem dúvida, um mar de experiência e sabedoria que servirá, como exemplo, para as gerações mais novas.

Nota-se, felizmente, que os tempos estão a mudar e as novas gerações estão a aprender a cultivar o respeito pelos mais velhos, sempre com o objetivo de proteger as gerações mais antigas.

Fica claro, com tudo isto, que a ideia de aprender com os outros é, cada vez mais, apreciada pela nossa sociedade. Esperamos que assim seja por muitos anos. 

É verdade que muitas vezes se ouvem queixas de que os avós deseducam os netos. É natural que acedam a caprichos que os próprios pais não toleram e, também, que reforcem mesmo os mimos de que eles tanto gostam.

É obvio que, em situações em que os pais dependem excessivamente da ajuda dos avós, a criança pode mesmo confundir os papeis.

Todos sabemos que há situações em que o tempo de convivência com os avós é avassalador. Os pais vão de madrugada deixar os filhos na casa dos avós e só os vão buscar ao fim do dia. Pelo meio, os avós vão pô-los e buscá-los ao infantário, dão-lhes as refeições e até o banho. Quando voltam a ver os pais já estão ensonados e prontos para irem para a cama. No dia seguinte todo este ritual se repete.

Muito mais podíamos acrescentar a esta temática. Teríamos que falar das férias dos avós com os netos, dos passeios entre eles, etc.

E muitos desses avós, reformados, correm sérios riscos de pobreza, uma vez que as reformas ficam aquém das necessidades reais, já que oito em cada dez idosos recebem uma pensão mensal que não chega aos 410 euros.

De qualquer forma, a verdade é que os tempos são mesmo outros.

Afinal, qual é a geração que poderá ter maior conhecimento, sabedoria e experiência relativamente aos mais novos?

É, por isso, que podemos afirmar, com todo o rigor, que estes são os Idosos do Século XXI.

 

António Rebordão, Membro da Direção da Mutualista Covilhanense

- 17 jun, 2022