Diretor: Vitor Aleixo
Chefe Redação: Ricardo Tavares
Ano: XI
Nº: 521

Será, o desporto, um veículo de paz? Voltar

Se questionarmos o cidadão comum sobre as palavras que associa a árbitro, é expetável que enumere vocábulos tão distintos como verdade desportiva ou corrução. Infelizmente, grande parte da comunicação social apenas se preocupa em dar eco ao setor da arbitragem sempre que estão em causa aspetos com conotação negativa, nas quais se incluem decisões técnicas e disciplinares de difícil análise, muitas suspeitas infundadas de corrupção ou situações de violência. Todo este clima nefasto acaba por afastar jovens valores desta causa e, por conseguinte, da prática desportiva.

Considerando que a origem geográfica dos árbitros é muito dispersa o apoio institucional ainda está longe do ideal. Este facto obriga a que estes acabem por desenvolver as suas capacidades físicas, técnicas e psicológicas de forma muito autodidata e informal, num processo que conta muito com o auxílio dos colegas mais velhos. São eles que influem na autoestima dos mais novos, mostram a importância do autoconhecimento e da resiliência e da integração num grupo que se deve mover por valores.

Ser árbitro é integrar uma família que abraça causas, como a verdade desportiva, é comprometer-se com as responsabilidades inerentes à sua função. Daí que deva adotar um modo de vida saudável, em vários domínios. Ser árbitro é praticar desporto de forma adequada, alimentar-se e descansar de forma conveniente. Mas é também relacionar-se e conviver com o outro de forma sã, sem se deixar cair em estereótipos ou ideias preconcebidas.

Os recentes acontecimentos no leste europeu têm colocado a nu o pior que há na condição humana, mesmo entre os homens e mulheres ligados ao desporto. Provavelmente, o fundador os Jogos Olímpicos modernos, Pierre de Coubertin, estaria longe de imaginar que em pleno século XXI se assistiria a uma troca de acusações de cobardia entre desportistas ligadas às duas fações beligerantes. Por outro lado, duvido que encarasse de bom grado a exclusão de atletas de grandes competições desportivas com base na nacionalidade. Compreendo que esta é uma forma de pressionar o poder recuar nas suas decisões políticas que têm tido consequências tão nefastas. Não acredito, todavia, que seja com a exclusão da participação dos russos nos jogos paraolímpicos que se desperte a consciência humana de Putin e dos homens. Além disso, longe de querer desculpabilizar a ação militar russa, questiono: qual a diferença da sua ação militar sobre a Ucrânia da perpetrada por alguns estados ocidentais no Iraque na década anterior? Ambas foram justificadas pelos invasores como uma forma de pôr termo a potenciais (mas desconhecidas) ameaças dos invadidos… Na época não foi declarada, e bem, qualquer exclusão aos atletas ocidentais. É caso para reformular o adágio “todos iguais, todos diferentes”…

O desporto deve ser um veículo de difusão dos valores da amizade, do diálogo, do respeito e da paz. Dentro deste não há nações superiores ou inferiores, existem, sim, indivíduos que têm uma identidade própria. É com este espírito que a Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF) promoveu, na passada semana, uma campanha de sensibilização à Paz na Ucrânia em todas as competições nacionais. Com a mesma foi possível assistir à entrada das equipas de arbitragem com camisolas de aquecimento com a bandeira deste país e a frase “O respeito vence sempre”. Neste momento a APAF colocou à venda estas camisolas (5€) assim como braçadeiras de capitão (3€). Estas poderão ser adquiridas por qualquer pessoa ou clube, desde que o manifeste junto desta instituição (apaf@apaf.pt) sendo que o valor angariado será direcionado para a aquisição de bens alimentares que terão como destino a ajuda humanitária nesta região.

 

Sérgio Mendes, Professor e Árbitro

- 11 mar, 2022